quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Enchente

imagem do google



Meu dentro
não tem fundo
nem margens
e o mundo
me é pouco
para correr
Sou sôfrega
ávida
sou trôpega
e sou torrencial
É como
domo meus
cataclismos
íntimos
e tento conter
meus rios
internos
que inundariam
a cidade
da minha
sanidade
frágil.

Um comentário:

Mário Lopes disse...

Então é assim: a poeta quer ser inundada de algo que seja intenso. E só pode ser intenso o que é presente. Seu dentro não tem fundo nem margens, não se mede com fita métrica. O que é preciso é que a uma inundação suceda outra, que os seus espaços vazios sejam ocupados por uma força poderosa, que no seu movimento exista aprendizagem e esquecimento imediatos. A acumular, que sejam perplexidades, mistérios por resolver. Não quer chegar a um resultado, como o matemático que na divisão obtém resto zero. A poeta, pelo contrário, quer que nós, que a lemos, obtenhamos no final um resto que nos faça hesitar. Terá de ser inequívoca na sua acção para que nos seus leitores essa hesitação surja. Talvez, por alguns momentos, consiga colocar uma palavra e uma só em cada verso, apenas. Como uma criança que toca no piano com o indicador uma nota a seguir à outra. Como se fosse a primeira vez, como se tivesse tudo para aprender. Mas também como se o mundo fosse pouco para correr.

Poema lindo, Rossana.