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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

no meu quintal

 
Foto do Google

            Li um dia desses, num livro de Rubem Alves (a quem dedico um amor incondicional), que “os homens são seres que perderam a confiança dos pássaros”.
          É bem verdade isso, mas não o meu bem-te-vi!
          Sim, eu tenho um bem-te-vi, que de fato não é meu pois ele é livre, mas preocupa-me como se fosse.
          E o tal - que habita os arredores do meu quintal - é muito abusado, e se não confia em mim, decerto que não demonstra, pois é visivelmente confiante de si mesmo. Não sei exatamente onde mora, pois deve ser um bon-vivant, sem residência fixa, nem nada.
          Ele é um cara, digo, um pássaro enturmado e deve ser o falastrão da turma de passarinhos que voa pelos fios da minha rua e visitam as árvores do meu quintal. Chama todo mundo pra conversa e faz isso bem alto, com seus outros amigos bem-te-vis, sem papas naquela linguinha que só quem é passarinho entende. Chega a ser uma afronta a sua cantoria descaradamente alta.
          Além de animadão, o meu bem-te-vi é corajoso!
          Explico: Tenho uma cadela vira-latas que faz de tudo para me agradar, e por algum motivo inexplicavelmente mórbido a bichinha achou de me presentear com pássaros mortos.
          Já tentei fazê-la entender (com conversas, gritos e até ameaça de chineladas), que não precisa fazer isso para me mimar. Aliás, que ela está terminantemente proibida de matar passarinhos!
          Fato é, que ela ignora solenemente minhas explicações e intimidações. Passa os dias pulando e correndo atrás de passarinhos e vez ou outra consegue pegar um pardal ou uma andorinha desavisada, depositando o coitadinho  sem vida orgulhosamente, na soleira da minha porta.
         Sei que não é por mal, mas fico consternada. Isso lá é homenagem que se faça?
         Se já não gosto de passarinho preso, que dirá morto...
         Mas o danadinho do bem-te-vi não se impressiona e provoca minha cadela ignorando seu talento de Diana. Desce gritando (leia-se “piando”) feliz, tira uma rasante e arremete, peralta. Corre riscos despropositados.
          Talvez não compreenda o perigo que é cair na boca de um cachorro adulador e sai por aí contando suas proezas para os outro da sua laia, conversando alto como lavadeiras.
          Azucrinam-me com tanto “piatório”, desdenhando a ameaça e a minha presença.
          Mas depois me dou conta da minha sorte, por ser uma pessoa que não intimida passarinhos.
          Tom Jobim se orgulharia.
          Rubem Alves também.


terça-feira, 12 de outubro de 2010

O dia da criança de mim...


Não é que eu não quero que você cresça minha filha! Nem desejo que fique criança para sempre. Eu gosto de você assim do jeitinho que é e com a idade que tem agora, do alto dos seus treze anos a me olhar com esses olhos carregados de lápis de olho e rímel pretos.

Eu tenho mesmo é saudade de mim no tempo em que você era criança. Eu tenho saudade de como eu era poderosa aos seus olhos e aos meus.

Eu podia fazer mágica! Eu era a Miss “M”. A Super-mamãe!

Transformava tudo num evento fantástico e você vibrava!

Até uma simples paisagem da janela do carro era um maravilhoso acontecimento: - Olha a vaquinha, filhinha! E você olhava como se eu tive acabado de inventar uma vaca de verdade só para você.

Às vezes, eu sentia que você achava que eu não tinha feito um bom trabalho, pois nos desenhos dos seus livros elas eram muito mais graciosas. Ainda assim (generosa), me perdoava por eu não ter posto cílios longos na vaca (já que ela era menina), nem laços no seu rabo ou flores na suas orelhas.

Eu podia passar pelas portas com sensores e dizer “Abre te sésamo” e você encantada me olhava com olhinhos de admiração como se eu fosse a mulher maravilha, enquanto passávamos sem sequer tocarmos na porta.

Claro que você iria testar para ver se funcionava só com você muitas vezes, enquanto eu ficaria esperando você avaliar seu novo poder que eu tinha lhe delegado.

É disso que eu tenho saudade minha filha, porque eu me encantava junto. Eu quase acreditava que era mesmo uma heroína, capaz de prover seus mais maravilhosos desejos como fazer a voz do Ursinho Pooh e de toda a sua turma, desde o choroso leitão, o inteligente Abel, o triste Bisonho e o maluquinho do Tigrão. E eles conversavam com você por noites a fio, e você se sentia incluída no mundo mágico das historinhas.

Eu poderia ser até chamada pelos Estúdios do Maurício de Souza para dublar a Mônica, a Magali, o Cebolinha e toda a turma. Fiquei especialista!

Lembra quando você quase viu o trenó do papai Noel no céu? Ou será que não viu? Até hoje você não tem certeza se foi real.

E sua felicidade, enquanto seguia as pegadas do coelhinho da páscoa (de guache branco ou maisena no piso de madeira da sala), que eu fazia só para ver seus olhinhos espantados e alegremente inquietos.

Deixava rastros de palha e ovinhos de chocolate, até chegar ao grande local: um maravilhoso ninho de enormes ovos de chocolate! Você pouco ligava para o chocolate, queria mesmo os brinquedos que vinham dentro dos ovos.

Algumas pessoas (avós, tios, padrinhos), estragavam o suspense, pois traziam ovos de chocolate de presentes e entregavam na sua mão.

-Porque o coelho não veio?

Tenho saudade, pois quando você era criança, tornei-me criança também e agora sinto uma falta danada de assistir com você os mesmos filmes dezenas de vezes, até que seu emocional conseguisse se organizar e então você nos permitisse ver outro.

Sei que o tempo não para, e quem sabe um dia, volto a exercitar esse prazer com netinhos. Que demore muito a acontecer, pois você ainda é muito jovem, a despeito da minha necessidade de brincar.

Por isso, hoje eu acho que vou a um parquinho, me sentar num balanço e balançar bem alto...

- Não minha filha, não precisa vir comigo. Não quero que pague esse “mico”.

Feliz dia das crianças!

Rossana Masiero