Eu quis fazer um bolo saboroso
um deleite doce e apetitoso
pra se comer junto a um café quentinho
num entardecer da vida aconchego
Uma guloseima que não mata a fome
mas que lambuza de prazer
a língua de quem come
e nutre a alma de esperança
Pedia a receita igual medida
em quantidades infinitas
do trigo do amor e da amizade
E duas xícaras do açúcar da paixão
Uma colher de afeto era o fermento.
E tudo se misturava dentro da cumbuca do coração
Podia adicionar um naco de saudade e de história
Eu os tenho bem guardados no armário na memória
E uma pitada de sal bem ao meu gosto...
E foi assim, que por medo de ficar insosso
cometi o engano indesculpável
O sal era o egoísmo era a cobrança
que deveria ser usado só um tantinho
com muita temperança...
para neutralizar o melado das lembranças
e realçar o sabor da emoção.
Perdi-me entre tantos ingredientes
Errei a mão sem ter percebido
Pus para assar o erro cometido
e agora eu tenho um bolo intragável
Não há ninguém para comer comigo
Não é possível de ser digerido
Não é passível de ser mastigado
Ficou salgado e está tudo perdido
Estou faminta frente ao bolo desandado
E o café esfria na mesa da solidão
Tenho ainda tantos ingredientes
Tenho o trigo do amor e da amizade
E a afeição que faz crescer a massa
Ainda resta paixão dulcificada
E na despensa, história o bastante
E saudades, então, eu tenho aos montes
O sal do egoísmo, eu joguei fora
O saco inteiro pra não ter tentação...
Eu usaria em seu lugar se me emprestasse
Uma xícara cheia de perdão
E eu faria outro bolo novamente
E daria todo ele de presente
Ao poeta que me alimenta o coração.