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quarta-feira, 2 de março de 2011

Dentro de mim

       
       Vez ou outra, eu embarco numa viagem introspectiva onde conjecturo e permeio meus pensamentos com lembranças, sensações, devaneios e desvarios.
Acho que todo mundo faz um pouco isso. Cada qual da sua maneira.
      Sinto que tenho um patrimônio enorme bem aqui dentro (não sei se na mente ou no peito), que não consigo organizar.
Não sei como catalogar meus pensamentos, guardar em "pastas" separadas, e muitas vezes, não encontro na mente, as lembranças que pensei ter guardado. Tenho a memória desordenada.
Escrevo sobre isso muitas vezes, numa vã tentativa de me arranjar interiormente.
       Falta-me método para arquivar sentimentos em minha "área de trabalho", nos "meus documentos" ou na pasta de "minhas músicas", e nas imagens que impregnam meu cérebro. Meus poemas e os poemas de outros [que eu gosto], se fundem, se misturam, a ponto de eu não discernir quem escreveu. Espécie de dislexia literária.
     Acontece assim também com o “bem querer”, que se mistura com simpatia, empatia, paixão, afeto, atração... Tudo tão confuso.
     Gostaria de ser mais organizada e disciplinada, de conseguir desfazer-me de arquivos temporários, esvaziar a lixeira, "desfragmentar' minha mente, limpar o HD e eliminar o que já não serve e atrasa meu funcionamento.
      Queria "deletar" o que dói.
      Apagar as saudades, mas não as lembranças.
      Mas sou uma pessoa. Uma pessoa confusa, perplexa e complexa.
     Sou um equipamento emocional de qualidade duvidosa e de funcionamento incoerente. 
     Não realizo suficientemente, e meu tempo de ação é diferente do ideal, e perdida no meio disso tudo, eu ainda duvido dos meus princípios, afronto minhas próprias crenças, careço imensamente de aceitação e de afeto; e onde quer que eu esteja, estou sempre e absolutamente enfiada em meu próprio turbilhão mental sem conseguir desvencilhar-me.
      Acomete-me ininterruptamente desassossegos que não controlo e "querer" não é um verbo que conjugo com freqüência por não saber o objeto que o completaria.
     Sou a dúvida, sou a controvérsia e sou recipiente de muitos elementos, mas sou resistente e resiliente.
      Só preciso de um bom técnico, que entenda bem de hardware e software da alma.
       Alguém conhece?

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

dos detalhes

         
          De tanto buscar simplificar-me para alcançar a minha essência, tenho me esquecido da delicadeza dos pormenores. Do enfeitar as coisas só pela boniteza da belezura.
          De tanto enxugar meus versos, tenho em minhas mãos uma esponja encharcada de poesias que escorrem pelo chão e o escrito está meio vazio de encanto. Já não tem pé-de-mel no quintal dos meus versos e as miudezas que enchem de graça a existência, estão fazendo jogo duro com a minha imaginação. A criatividade, que antes corria solta como bala de coco embrulhada com papel cor-de-rosa em festa de menininha, anda rareando igual água no sertão.
          Eu fico então aflita, porque uma parte de mim quer produzir assim mesmo e a todo custo. Sou como criança manhosa e afoita, que não quer aguardar os “dispensáveis” confeitos, para engolir logo a guloseima. Assim, ando perdendo a chance de permitir que outros sentidos meus sejam felizes.
          O essencial é muito puro, e pureza é coisa de anjos e santos.
          Eu sou só humanamente prosaica, e meu eu precisa deleitar-se com os prazeres presenteados pelo criador através dos sentidos. Todos os cinco. Seis... Sete...
          Experimentar todos os gostos, os luxinhos, as rendas e lacinhos, os batons e perfumes, a cobertura e os confeitos, pois que se o conteúdo for adequado, a alegoria só valoriza e se não for, nada vai disfarçar a feiúra, o gosto ruim ou o fedor.
          Ou o vazio...
          Porque então, não arriscar pela alegria? Mimos para a alma é do que precisamos. Todos nós.
          Vou aprender de novo a ficar contente com as sutilezas e delicadezas e acolchoar de cortesias e arte meu despertar, porque uma coisa que o tempo tem me ensinado é que nem tudo que é aparentemente supérfluo é inservível, nem que seja apenas para deleite dos sentidos, e isso por si só já é uma incumbência muito digna.




domingo, 5 de dezembro de 2010

proseando

Magritte - The false mirror

Acontece que ao contrário dos insones, não sou de passar as noites em claro..
Justifico que com essa minha alma ansiosa e sentimental, eu não consegui cruzar por essa vida incólume, portanto, recorro por precisão a alguns “recursos” para dormir.
Sintetizando o óbvio, durmo pesado, mas costumo acordar logo cedinho.
Que não pensem que é porque sou um tipo de pessoa madrugadora por gosto ou temperamento, é só que tenho um ouvido apurado e, depois que passa o “sono”, qualquer passarinho mais afoito me acorda. Ficar deitada a toa dói o corpo e atazana a mente.
Então me levanto, obviamente sem muita disposição. Confesso totalmente sem pudor, que não sou daquele tipo de pessoa que se levanta animadíssima. Tenho quase sempre, a parecença e o humor de um zumbi, sendo que meu corpo e cérebro demoram-se mais que o normal para se disporem a funcionar direito.
Aliás, uma parte de mim abomina gente muito feliz, logo de manhã cedo.
A manhã deve ser silenciosa e respeitar o ritmo e a pulsação do desabrochar de uma rosa. Lenta e suavemente, tal os meus neurônios macambúzios.
Pois hoje, acordei cedinho, com a chuva batendo na janela e resolvi escrever sobre algum assunto que ainda nem escolhi.
Gostaria de escrever sobre muitas coisas. De preferência um poema, mas falta-me a inspiração e talvez deva falar exatamente disso!
Do que essa louca (a inspiração, não eu!), comete quando aparece ou ausenta-se ao seu bel prazer.
Poderia escrever, por exemplo, sobre o enorme estrago emocional que acontece com os poetas e escritores em geral, quando as palavras resolvem brincar de esconde-esconde. Uma aflição indizível.
Para onde ela vai essa danada?
Viaja entre mentes e canetas aleatoriamente, ou se esconde caprichosa de tempos em tempos, para se fazer valorizada?
Sei que deve existir um lugar oculto, talvez sagrado...
Um esconderijo impossível de localizar e é lá que a poesia se esconde às vezes. Lá também se esconde a paz de espírito, entre muitas outras coisas.
Lá é a casa dos “clipes” de papel que somem para sempre da sua mesa, das tampinhas de canetas BIC desaparecidas e das faxineiras que sempre pensamos que foram abduzidas, já que se vão de vez, sem deixar vestígios.
É o sítio para onde vão todas as coisas que a gente nunca encontra, até que elas resolvam, por vontade própria, reaparecerem.
Desconfio que seja um “universo paralelo” e que desse lugar, essas coisas conseguem ver nossas aflições, e debochadas riem-se das nossas angústias.
Como se o avesso do espelho tivesse vida própria, e se divertisse com essa imagem reversa. A vida transforma-se num jogo dos sete erros, onde o que nos falta faz falta. É a dimensão irreal para onde tudo que não temos ciência da importância se esconde.
A “palavra” e a “inspiração” costumam fazer conluio e desaparecem sempre juntas, e justamente quando mais precisamos delas. Não é por maldade, mas por pura insolência, coisa que é inerente às palavras. Os poderes a elas conferidos fizeram-nas manhosas.
O sabiá que me acordou antes da hora e apesar da chuva é o culpado por esse texto que deve estar divertindo essa aldeia perversa da outra dimensão.
Devia voltar a dormir...

domingo, 18 de julho de 2010

alma perdida

Broken doll - Amanda Cass


Eu me perdi da minha alma há algum tempo.

Tenho para mim, que há muito tempo eu não sou mais eu.

Minha alma fugiu em algum momento quando estava distraída e já era tarde quando percebi.

Perplexa e confusa, eu a persigo por ai. Ando em busca de pistas, pegadas. Ponho-me em perigo, exponho-me, arrisco diante de qualquer vestígio de seu paradeiro, mas nada me dá indícios de que ela ainda habita em mim.

Não me sinto mais dona de mim, nem da minha casa, nem mesmo do meu querer. O querer perdeu-se com a alma minha.

Ela saiu sutil e discretamente. Desistiu de mim por certo, de tanto eu fazer concessões. Permissível, fui consentindo que meus desejos adormecessem e meu querer anestesiasse em prol do querer de outros.

Não foi por bondade, nem caridade. Apesar de hospedar um espírito pacífico, minha permissividade vem da indolência e de acomodação, mais que da benevolência.

Tenho a exata ciência disso.

Fui deixando de fazer as coisas que me davam alegria e que hoje nem sei mais se gosto.

Já faz tempo que não contemplo o nascer do sol, nem caminho por aí sem rumo, nem pedalo minha bicicleta sob o sol. Nem sei se ainda sei andar de bicicleta.

Tempo que não tomo um porre ou um grande sorvete, não danço, não canto bem alto no chuveiro, que não brinco de ser criança, que não aproveito de verdade a experiência de estar viva

Tempo faz que não sou muito, muito feliz, mesmo por alguns instantes, que não faço uma viagem, que não beijo com paixão, que não sou amimada só um pouquinho.

Essa nostalgia tem parecença com egoísmo, eu sei. Egocentrismo. Mas tenho a precisão urgente de ser contente um pouco, pois que os tempos de agora, são tão sem entusiasmo, que me apavora desgostar de vez de ficar viva.

Preciso achar a “ânima”.

Deve ela estar escondida cá em mim, pois que uma alma não há que deixar um corpo que ainda vive. Isso é certo!

Escarafuncho na minha memória o momento que a “vi” pela última vez, mas não me vem à lembrança. Presumo que tenha ficado lá atrás com minhas bonequinhas da infância ou entre os cadernos de adolescência, ou no primeiro dia de aula, ou quem sabe no primeiro beijo de amor. Mas a gente tem mania de apurar lembranças, só para ter ilusão de que já foi feliz, mesmo sem ter sido.

Sei que é a investigação mais solitária da minha existência. Um momento especialmente nevrálgico

Não há como obter ajuda para encontrar a alma que está dentro de mim.

Quem mais poderia dela saber? Supondo que a encontre, como resgatá-la?

Qual a isca que se usa para atrair e capturar uma alma fugidia?

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A rainha de mim

imagem do google
         
          A poesia fez colméia em mim desde que eu era garotinha e através de pequenas “operárias”, reproduziu-se em minha anatomia emocional um enxame de regalias para a abelha rainha dos versos.
          Menina ainda, já brincava de versejar, rimar e fazer jogos emotivos com palavras. Era assim que tomava conta da rainha solitária e silenciosa que habitava dentro de mim: Poesia.
          A “eu menininha”, então, foi crescendo e escrevendo. Escrevia para mim e pela soberana, que reinava absoluta em meu castelo inabalável.
          Até que outra nobre aristocrata das artes, começou a cercar sutilmente meu castelo, com suas tropas sedutoras de melodia e ritmos, flertando com a solitária poesia de mim, tentando sorver seus versos... Música...
          Eu gostei dela, assim logo de cara. Minha poesia também se encantou. Mas a música, sempre foi cheia de inesperadas exigências e disciplina. Necessitava sempre de intensa e quase exclusiva dedicação e nunca fui de me dedicar muito. Nunca fui bom súdito. Apenas apaixonei-me por seus acordes e por um tempo permiti que ela namorasse seriamente com a poesia habitante de mim.
          Compus canções, cantei, ganhei festivais, gravei algumas crias desse caso de amor, ensaiei pequenos sucessos.
          Confesso que a música conseguiu espaço em mim sem grandes combates, utilizando-se do encanto das melodias, da harmonia, do ritmo e mais, valendo-se da minha vaidade, que não me orgulho.
         A poesia é um evento solitário sem grande estardalhaço. É um exercício pessoal e sagrado. Quase sem aplausos.
          Já a música, alicia e atrai não só por si, mas também pelo glamour que carrega consigo, pois que vem sempre acompanhada de celebração. Foi talvez por isso que comecei a cantar canções de outros e joguei na gaveta meus versos que amarelaram.
          A abelha rainha extinguiu-se e não se encontrou na colméia, outra larva forte o bastante para substituí-la. As operárias desertaram de mim e eu, enfeitiçada pela música, me deixei sair pelo mundo, cantando versos que não eram meus.
          De qualquer forma, não me devotei como devia à música, nem corri atrás do sucesso. Foi um namoro sem casamento, sem compromisso, que terminou sem mágoas.
          Já não sinto falta de cantar ininterruptamente, como sentia antes. Versos e canções de outros, já não me basta. Já não sinto precisão da música namorando a poesia.
          Além do que, a linguagem da música é universal. A melodia que comove aqui, comove em qualquer lugar do mundo, sem precisar de traduções.
          Compreendi que poesia e música existem independentemente uma da outra.
          Podem ser felizes, uma sem a outra, e até se encontrarem de vez em quando.  
          Podem ser amigas.
          Voltei então, atrás de mim mesma, tentando desengavetar minhas palavras. Busquei os escritos antigos, que apesar de magoados, foram delicadamente permitindo-me ensaiar versos novamente.
          As dificuldades de voltar para casa, me ensinaram que rainhas perecem, mas a essência da nobreza permanece assim como o cheiro e o sabor do mel.
          Não haverá rei posto por aqui. Resistirá a dinastia dos versos.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Nos bailes da vida...

Milton Nascimento não falava a sério quando compôs "Nos bailes da vida", especificamente no verso que fala que "para cantar nada era longe"...

Já viajei em boléia de caminhão quando o ônibus de uma Banda que cantava quebrou, passando por poucas e boas, nessa vida de cantar. Mas no último fim de semana eu ultrapassei meu recorde de acontecimentos curiosos. Fui cantar em Roraima.

Alguém tem noção? É longe, muito longe! Não tanto se você está em Manaus, mas se você está em São Paulo, é sim! Congonhas-Brasília, troca de avião para Manaus e então para Boa Vista.

Por pura curiosidade, antes de ir, fiz uma pesquisa criteriosa para saber quem conhecia Roraima. Ninguém! Ninguém das minhas relações, ninguém que eu tenha visto ou encontrado já tinha ido à Roraima. Nenhum de meus amigos mais viajados, que conhecem cada cantinho do Brasil e do mundo... Roraima, decididamente não! Ninguém!

Pois eu digo que estão perdendo. Tem quem chame de "fim de mundo", mas eles se vêem como o Portal de entrada do Brasil, e não estão de todo errado, se você estiver vindo da Venezuela fugindo de Hugo Chávez.

Alguns fatos engraçados me deram vontade de escrever esse texto, nada poético. Primeiro que eu saí de um frio bárbaro em São Paulo e caí num calor alucinantemente úmido de quase quarenta graus em Boa Vista. A sensação térmica era de sessenta. Não reclamo, pois nunca reclamo do calor, só do frio.

Isso me fez lembrar o meu amigo virtual Flavio Ferrari que sempre que pode, foge do frio e nos "esnoba" pelo seu blog (arguta.blogspot.com). Pensei em fazer o mesmo, mas o calor de Roraima não é coisa de se esnobar. É de sufocar e procurar o "freezer" mais próximo.

Outro fato engraçado foi a "caravana" de japoneses.
Eles fazem excursões até para Roraima, gente!
Vão em "bandinho", munidos de uma parafernalha de equipamentos tecnológicos de última geração (câmeras de fotografia, de vídeos, binóculos, etc). Tenho quase certeza de que eram os mesmos que encontrei há muitos anos atrás descendo de uma "Van" na frente da Catedral de Notre-Dame.

Não foi possível tirar a dúvida, (não porque eram todos parecidos), mas porque a maioria estava de máscara para se proteger da gripe "suína". Eles saíram de São Paulo de máscara e desceram no aeroporto de Boa Vista (mais de oito horas depois), com a mesma. Aquilo devia estar um criadouro de germes e bactérias, mas eles estavam se achando protegidíssimos.

Conhecer Boa Vista foi um enorme prazer. Uma cidade em desenvolvimento, com um traçado urbanístico moderno, avenidas muito largas e com grande potencial financeiro para os "muito" resistentes ao calor.

O Território de Roraima passou a ser Estado do Brasil há cerca de 20 anos se tanto, e tem belezas naturais indiscutíveis e 99% de sua área é de Preservação Permanente e Reservas Indígenas.

Tem um excelente comércio na fronteira da Venezuela (parecido com o Paraguai, mas de qualidade mais confiável), segundo nosso guia. Infelizmente não tivemos tempo para compras e lazer, a não ser uma peixada maravilhosa na orla do Rio Branco.

O povo local é bastante hospitaleiro e carinhoso, mas ninguém é da terra. Ao menos não conheci nenhum boa-vistense(?) da gema. Todo mundo veio de outro Estado, a não ser os índios e ribeirinhos.

Roraima é a terra dos Yanomamis (lembram-se do Raoni?), entre outras várias tribos menos pops.

E a poesia, nisso tudo?
Compartilhar!

Compartilhar é poesia! Viajar é poesia! Olhar a Amazônia de cima e ver o encontro do Rio Negro com o Solimões é poesia! Estar na única capital do Brasil acima da linha do Equador não é poesia, mas é legal.

Cantar em Roraima e agradar foi pura poesia.

Mas que é longe, é...

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

sobre nada

A folha branca e virtual enfrenta-me arrogante. Desafia-me sarcástica e humilhante, reduzindo-me à mortalidade patética de quem não é nada se um anjo não insiste em soprar devaneios inspiradores a serem escritos. Poemas e palavras.
Ai, as palavras... Assuntos tantos, anseios tamanhos, receios maiores. Penso no mar e na maré. Penso. No vai e vem. Penso se o mesmo que vai será o mesmo que voltará. Penso que ando sem nada a dizer apesar de tantos sentimentos e momentos de revelações que me escapam quando por um segundo eu divago e disperso.
Hoje mesmo pensei na fé... Por alguns momentos senti que não mais acreditava. Fugiu-me a fé? Talvez não, mas certamente evadiu a sensação de conforto de quando se tem certeza. Ter fé é ter sensação da condição do amparo incontestável e é este sentimento que não me acuso agora.
Meu radar anda falho para tantas coisas. Tantas. Sou uma bússola quebrada, desorientada. Desnorteada é como me sinto. Descrente? Não Dele. Descrente de mim que ando pela vida cometendo enganos que se não são grandes vilezas, também não tão prontamente perdoáveis.
Ando cansada de esmurrar sacos de areia que me revidam na mesma proporção, mas sem nenhuma emoção, o que me transforma na única que me espanca.
Flagelo-me, cortando-me com a pena, sem pena. Pena!
Não entendo bem a vida e não compreendo Deus. Eu sinto um tanto de desprezo e amor pela humanidade e ando usando demais o adjetivo "comovida", pois é assim que tenho me sentido. Comovida! Com tudo!
Comove-me a velhice, comove-me a doença, comove-me a poesia, comove-me a humanidade com suas benevolências e suas barbáries. Ando comovida demais e envolvida de menos com a vida. Comovida e sem-i-vida, o que me faz quase morta. Quase.
Palavras não me comovem agora, mas poemas sim. A morte não me assusta, mas um poeta sim. Ando meio esquisita, gostando menos de pessoas reais e mais de pessoas virtuais. Ando rindo através de teclinhas (hahaha, kakaka, kkk rss, uashuahsua - essa última é mais difícil de escrever), entre outros recursos que utilizo no meu teclado, que tem sido leme que determina por onde navego nessa viagem de poesias, imagens e pessoas que nem conheço... E muitas delas, me enternecem.
Estou ganhando da folha branca, que incrédula me pergunta como me atrevo a escrever acerca de nada. Ela não sabe da beleza do vazio, pois o "nada" pode ser tão interessante, tão incondicionalmente preenchível que permite discorrer enfática sobre ele. O nada é a possibilidade total.
Sobre nada de fé, nada de foco, nada de estrada. É estar numa campina enorme. Estática, paralisada e não ver caminhos. Não existem trilhas que dê indícios para onde ir. Não se vê rastros nem pegadas que sinalize para onde seguir.
Então, sigo escrevendo assim só por pirraça. Porque, teimosa como sou, não vou deixar que uma folha branca e arrogante me acue e me amedronte.
Se não há caminhos demarcados posso ir, pois, para onde eu quiser. Todo rumo que eu seguir há de me levar a algum lugar.
Estou indo então, e quando chegar - se chegar - eu mando dizer como é lá.
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quinta-feira, 23 de julho de 2009

inerte

imagem do google
Dissipo-me nas sazonais calmarias, onde evaporo, desfaço e perco a fibra da luta. Espécie de diáspora de meus sentimentos que dispersam, migrando do meu coração para o resto de mim. Perdendo-se. Nesse tempo não quebro paradigmas, que é o que tanto gosto. Acomodo-me e isola-se o demente que mora em mim. Não assolo nem reverbero. Meu demente era contente, mais anjo torto que demônio. O louco a me motivar, o Dom Quixote da minha alma. Diversidade é fundamental para o manejo da minha existência e quando o meu louco está preso, minha alma diluída não aceita gradações, modulações na palheta. Fica ela limitada, nebulosa, descorada. É quando a criatividade recua assustada e vai se esconder entre as vísceras, enclausurando-se, escondendo-se da paz. Desgraçada de mim quando me abandono assim. Fico eu nem infeliz nem nada, pois em partes, não conto a soma total de mim e, portanto faltam pedaços e o quebra-cabeça incompleto sequer insinua o esboço da batalha que posso lutar. Não me alegram calmarias, não gosto desses tempos de falsa bonança, onde enfileiram-se as facetas previsíveis de mim. Temo gostar das abissais ventanias, os tempos de tempestade em que meu louco varia e meu demente cria e eu me completo total. Inteira e heterogênea me adenso e me multiplico, complico e me fortaleço. Refaço-me multicolorida, reagrupo meu exército, monto meu Rocinante e saio por aí a lutar com moinhos de vento.
 

quarta-feira, 22 de julho de 2009

vera C idade

Foto de Adriana Tatini
Li outro dia uma crônica do Veríssimo - obviamente o filho - que falava de duas amigas conversando ao telefone.
O assunto era sobre um encontro de uma delas, que tinha sido um fiasco, pois o pretenso namorado no afã do desejo, quase estourou a prótese de silicone das nádegas e seios da dita cuja. Mordeu seus lábios num beijo mais ardoroso e o preenchimento quase foi danificado. Suas lentes de contato verdes caíram quando ele apertou seu rostinho encantador, o que ainda amassou seu botox. Além disso, no “amasso”, o arranjo de cabelo postiço, despencou.
Depois de tudo, o cara “brochou” e as duas concluíram que ele era “viado”.
Estava no banho, quando me lembrei do texto e comecei a divagar sobre o assunto. Isso não tem nada a ver com o assunto, mas “viajo” muito quando estou sob um chuveiro.
Tenho tentado manter a naturalidade, e ser, como me diz a Dag, minha querida amiga e massagista “naturalmente bela”.
Gente! Tá difícil!
Depois dos quarenta, a coisa começa a “pegar”. São ruguinhas que não param de aparecer, a pele já não tem mais o mesmo viço, e confesso sem pudores que muito sou preguiçosa para ginástica.
E depois, quem foi que disse que "malhar" é natural? Ficar andando um tempão numa esteira que me leva de nada para lugar nenhum, puxando ferro feito um halterofilista narcisista ou alongando feito um gato sonolento...
Estou mais para ter uma hérnia de disco de ficar horas sentada na frente do computador, e ter uma lesão nas mãos de tanto "teclar". E a grande e quase única ginástica que meu corpo faz, é emagrecer ou engordar periodicamente, conforme exercito o fechar e abrir de boca nas refeições.
Talvez até goste de meditação e uma “Yoguinha” de vez em quando, sem grandes esforços...
Não sei mais o que fazer. Juro que estou tentando manter certa dignidade, mas não sei quanto tempo mais vou demorar a aderir à onda do botox, silicone, fio russo e sei-lá-mais-o-quê dos procedimentos que existem por aí. Aliás, preciso começar a me informar.
Mulheres, socorro! Preciso de conselhos femininos urgentes, pois os homens não entendem disso. Eles sempre dizem que quanto mais natural, melhor! Desde que você tenha no máximo 25 anos... Mudando (não muito) de assunto, outro dia ouvi uma frase que dizia que mulheres não envelhecem, ficam loiras! Passei a observar e constatei que é isso mesmo que acontece.
Quando meus cabelos, que nasceram loirinhos, começaram a escurecer, não tive dúvidas e fui imediatamente "fazer luzes"! As mulheres sabem do que se trata. Alguns homens também.
Sei que isso não foi nada natural e “luzinhas-para-cá”, “luzinhas-para-lá”, estou loiríssima, mas bastante preocupada, pois além de ser cotada como menos inteligente, estou entregando a idade.
Não to entendendo!

terça-feira, 7 de julho de 2009

atendendo a um pedido

Hoje vou falar sobre doação de órgãos. Pouca coisa, pois pouco me envolvi com o assunto e confesso, tinha receios infundados e dúvidas, muitas dúvidas a respeito... Lendo a postagem de Leo (leomandok.blogspot.com), cheguei ao blog da Danny que vai ser operada para doar um rim à mãe, e como ela mesma insiste em dizer, não se trata um ato de abnegação e sim de devolver uma parte do que lhe foi dado por alguém quem lhe deu a vida. Quando escrevo, gosto de tempo para voltar e voltar e reler, antes de postar, mas a Danny pediu que escrevêssemos sobre isso em nossos blogs, coisa que o Leo fez da forma louca e linda que ele sempre escreve, que nunca nos dá a certeza do que é real ou ficção, portanto resolvi ser rápida e simples. Perdoem se houverem alguns erros. Danny, a moça do blog purasimpressões.blogspot.com conta que conviver com alguém que está a espera de doação de um órgão, faz dirimir toda e qualquer dúvidas a respeito de ser ou não doador. Não sou de levantar bandeiras, mas transcrevo aqui uma parte do texto dela, que me poupa de mais explicações:
"Acho que cada um de nós faz parte de um todo harmônico. O corpo que eu uso hoje um dia não me servirá pra nada. Nada mais natural do que o devolver pra continuar sendo útil, pra continuar vivo. Até porque a outra alternativa seria virar comida de minhoca e convenhamos que essa ideia não é nada agradável."
Eu concordo Danny, e confesso que se tinha dúvidas, agora já não as tenho e deixarei claro aos meus familiares que sou doadora de órgãos, e que quando eu me for, levem o que precisar, o que servir e o que prestar. A você desejo sorte, pois luz você tem de sobra.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Reminiscências...

Elton John foi minha primeira paixão! Quem diria que eu confessaria isso aqui assim tão corajosamente? Pois é, aos 11 anos eu me apaixonei por Elton John e sonhava conhecer o cara que cantava com aquela voz cálida e tão máscula o hit do momento, que era a música “Goodbye Yellow Brick Road”. Paixão platônica. Menina ingênua (juro) nem imaginava as nuances dos desejos humanos e nada sabia sobre homossexualismo. Naqueles tempos só sabíamos o que aprendíamos nas brincadeiras de rua, nas conversas com as amiguinhas e posso jurar que este não era um assunto de relevância, ao menos para nós. Nada disso foi explicado em casa ou na escola e, portanto nem desconfiávamos. Talvez até fosse um tabu na época e como não existia a internet com sua ilimitada enciclopédia mundial e seus sites de relacionamentos além de outras diversas possibilidades, não tínhamos como saber de muita coisa além do nosso universo restrito. Também não existiam canais de fofocas nem TV a cabo. Como será que sobrevivemos a isso? Nossa única semelhança com as meninas atuais é que até hoje, se uma garota tem um ídolo, ela tem esperança (leia-se "obsessão") de que um dia irá conhecê-lo e ele se apaixonará por ela. Era assim comigo e com Elton. Não me lembro de jamais ter visto seu rosto totalmente. Apenas nas fotos esdrúxulas das capas de seus discos de vinil, que eu, menina de cidade do interior e filha de professores, pouco tinha acesso. Chegavam até nós, algumas coleções de música clássica que meu pai comprava com dificuldades semanalmente ou quinzenalmente nas bancas de revista. Tínhamos também uma coletânea da Abril Cultural de MPB que me possibilitou ser apresentada aos clássicos da nossa música popular, desde Ari Barroso, Noel Rosa, Dolores Duran, Herivelto Martins entre outros, passando pela bossa nova chegando até a tropicália. Não posso negar que isso me trouxe uma boa bagagem cultural e agradeço a meu pai por isso, mas eu queria mesmo o vinil do tal inglês. Depois de tanto pedir, ganhei enfim o Long Play “Goodbye Yellow Brick Road” no meu aniversário de onze ou doze anos. Quanta emoção! O primeiro LP ninguém esquece! Eu ouvia na "vitrolinha" coletiva que eu e meus irmãos tínhamos ganhado no natal anterior. Aquele homem cantando me encantava, e eu decorava as letras que nem sabia o significado e lembrando-me agora do último show dele recentemente no Brasil, que foi televisionado com a legenda das letras traduzidas, melhor a ignorância. Naquele tempo, até chorava comungando a melodia com minhas emoções hormonais. Percebo hoje, que isso começava a delinear que tipo de mulher eu seria. Não pelo fato de gostar de pop inglês ou da música, mas pelo tipo de pessoa que me atraia. Nada de óbvio. Não gostava do menino bonito da “Família do-ré-mi”. Imagine! Não tem a menor graça! Eu tinha mesmo é que me apaixonar pelo homossexual inglês, problemático, que gostava de sapatos plataforma, chapéus e óculos gigantes. E nem bonito era, coisa que só ficou explícita, muito tempo depois. A beleza nunca foi apreendida por mim da forma genérica e acho positivo que existam pessoas de “gosto duvidoso”, pois que a unanimidade tira as chances do que é diferente e fora dos padrões. Entendo estética como sendo extremamente pessoal e no meu caso talvez seja atávico. Desculpa vô. Infelizmente, ou felizmente, minha paixão por Elton foi substituída rapidamente quando meu pai apareceu em casa com o LP “Construção” de Chico Buarque que tinha sido lançado alguns anos antes, em 71. Paixão fulminante que confesso, sem reservas, resiste até hoje. Posso até afirmar que Chico Buarque foi o grande amor da minha vida e que tive que terminar com ele por conta da unilateralidade. Neste caso, devo render-me à unanimidade e até por isso, não houve muitos problemas quando "namorávamos". Meus pais até aprovavam “nosso” amor, mas cansei de sofrer pela falta da contrapartida. Como nunca gostei de solidão, na minha leviandade de menina, logo depois de "terminar" com Chico Buarque, quase apaixonei-me novamente. Agora por um outro inglês, também estranho, chamado Freddie Mercury, que na época tinha cabelos compridos e usava um macacão branco decotado e colado ao corpo e era vocalista do Queen. Seus trajes eram um pouco ousados, mas muito interessantes. Ainda não sabia que ele também não era “hétero” (acho que nem ele sabia), coisa que muito pouca diferença faria na minha vida, até que descobri que ele era casado. Não podia gostar de homens casados. Era uma menina "direita" e, portanto abdiquei estoicamente de Freddie. Totalmente desiludida, comecei a ler poemas e volúvel com sou, de cara me apaixonei por Vinícius de Moraes, que além de poeta, era compositor e boêmio, coisa que sei lá porque, me atraiu muitíssimo. Na época, acho que ele estava separado da oitava mulher e jurei para mim mesma, ainda menor de idade, que iria conhecê-lo e seria a nona e última esposa dessa enorme lista. Parece que ele se casou de novo (não foi comigo), e faleceu antes de saber das minhas intenções! E assim, sem mais nem menos fiquei viúva do poetinha. Em 09 de julho de 1980 (data de falecimento do Vinícius) eu desisti de ter ídolos, mas continuo apaixonada por Chico Buarque.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Quando eu canto

Juro que não estou me gabando, mas fico impressionada com minha própria "capacidade" mental de pensar (pleonasmo hiper vicioso) e fazer várias coisas ao mesmo tempo. Não significa obviamente, que sejam todas profícuas ou positivas, muito menos que eu seja competente por conta disso. Pelo contrario! Me vejo atolada e atordoada com tantos pensamentos durante alguma atividade e isso me faz perder o foco, diluindo minha atenção. Explico-me. Na véspera de feriado, fui contratada para cantar num hotel bem bacana em Campos do Jordão, cujos responsáveis calcularam mal a "animação" dos hóspedes que estavam chegando para o feriado de "Corpus Christi". Promoveram várias atividades, entre elas uma cantora (eu) e um pianista no bar da lareira. Quem conhece Campos sabe que é uma cidade bastante fria nessa época do ano e o chamado bar da lareira desse hotel especificamente, é bastante aconchegante. Já cantei ali várias vezes. O fato é que os hóspedes passavam sucessivamente pelo bar em direção ao restaurante, ouviam um pouquinho de música e iam jantar. Esvaziava de novo. Tudo bem, pois depois do jantar, é de praxe parar por ali, tomar um licor, fumar um charuto (hargh!), e curtir uma "boa" música. Alguma coisa deu errado... Eles jantavam e desapareciam. Especulei o que poderia ser. Talvez porque o bar da lareira era o lugar onde os apreciadores de charutos se encontravam e agora é proibido fumar no local que antes era destinado a eles. Confesso que para uma cantora, isso é muito melhor. Cantar e inalar fumaça de charutos cubanos é difícil... Enfim, o fato de ser proibido fumar ali pode ser um dos motivos do esvaziamento do local. Tentando ser justa, imaginei se eu estava cantando mal, ou se o repertório não era do agrado, ou quem sabe, (amenizei para o meu lado) estavam apenas, todos muito cansados da viagem já que a faixa etária de frequentadores do dito hotel é bem acima dos quarenta. Enfim, cantei a noite inteira para meia dúzia de "gatos pingados". Isso não me afeta muito (só um tantinho), mas a troca de energia numa apresentação é cinqüenta por cento do sucesso dela. Quando a voz vem do coração ela é muito mais bonita. Quando parei de cantar em bailes, alguns anos atrás e resolvi cantar em bares, já se foram centenas de madrugadas e já houve muitas noites memoráveis e outras nem tanto, em que cantava para manobristas e garçons. Não que estes trabalhadores da noite não mereçam um tostão da minha voz, mas é muito frustrante quando acontece de não ter público. Existe só uma coisa pior que falta de público, é quando eles estão presentes só de corpo. Como diz Jô Soares, é quando a platéia não é talentosa. Não vou me culpar, porque na maioria das vezes o meu repertório funciona muito bem para esse trabalho. Voltando ao que eu queria dizer, é que enquanto eu cantava, tudo isso me veio à cabeça e não sendo o suficiente para me distrair, ainda comecei a filosofar acerca da vida. Fiquei pensando porque estamos por aqui, nesse planeta de provas e expiações, e o que fazer quando não se tem mais grandes paixões, nem muitos sonhos, nem motivação. Eu cantava e pensava (ao mesmo tempo e sem controle), como viver é sem sentido, e o quanto estou me sentindo triste sem saber bem por quê. Provavelmente, se o bar estivesse cheio, com pessoas ouvindo e apreciando eu me sentisse diferente, mas naquele momento me veio essa dor das dúvidas existenciais. Tudo tem passado muito rápido e pouco consigo reter. Junto com cantar, ler a letra (porque eu não consigo decorar nenhuma), sentir-me depreciada e filosofar, eu ainda tinha um poema que insistia em querer se fazer, mas que eu o detive antes que me perdesse ainda mais. Era um poema sobre quem não está mais amando ou apaixonado por nada nem ninguém e o quanto isso torna a vida estranha, triste e sem sentido. É como ter desistido de viver. Era um poema sobre um amor que saiu à francesa, foi deixando o outro devagarzinho, até desaparecer, não sem antes magoar bastante. Um poema de sobrevivência. Enfim, ele não sobreviveu. Morreu antes de nascer. Existem poemas assim... Que ficam morando só no pensamento e depois dispersam-se como as sensações momentâneas. Esse escrito é só um texto sem compromisso, sem intenção. É só um desabafo esquisito, uma constatação do quanto tudo é efêmero. Só pra terminar de compartilhar meu desvario noturno, enquanto fazia tudo o que já descrevi, ainda notei quase sem querer, a ostentação das pessoas entre botas caras, casacos de peles, bolsas de grife e me veio à cabeça os milhares de brasileiros que passam fome e frio e o quanto esse nosso país é desigual e injusto. Acho que não quero mais cantar...

sábado, 30 de maio de 2009

abstração


Amordaço as rimas dos meus pensamentos, pois me atormentam torná-las proativas e entre a nuca e a testa elas persistem, tecendo um fio que interliga o coração embriagado ao embrião sutil do entendimento. Eu sou "noir", sou lua, solidão. 
Quero estender palavras no varal e esparramar a escrita no quintal, e olha eu de novo atrás de rimas. Socorro! Alguém me impeça, segurem minhas mãos e algemem-me depressa. Importa mesmo é exprimir o alumbro dessa vida, pois que viver é mesmo uma empreitada e eu recuso a escusa das feridas. 
Não é desculpa a dor, a dor é nada e eu não quero contar métrica, nem seguir ritos. 
Me forço a não pulsar no ritmo. 
A liberdade é tudo o que eu queria. 
Ser livre para doer em sustenido, pois que o bemol desce e eu quero arriba, seguir rio acima, arrebanhar os arcos coloridos no céu soturno do anoitecer. 
Se sou "noir" é só a noite que me anima, e se fosse um pássaro, que pássaro seria? Noturno. E se fosse poeta como quem escreveria? 
Decisão injusta já que sempre me apaixono e o fio que liga o timo aos neurônios retesa, me gela e me espanta, pois que são tão tantos os poetas que me afino que desafino tentando cantá-los juntos. 
São tantas formas, tantas fontes, tanto estímulo, que meu costume vagueia sem estilo, estuprado por anseios de palavras, poemas e raciocínio. Não sei mais se quero vodka ou cappuccino.
Talvez só a água enxágue a minha alma. 
Mas vou por aí com a mente ventilada e estoica sobrevivente. 
A louca mantendo a calma como quem ainda espera alguma coisa, por mais que seja deselegante a busca, insisto em achar que num momento incerto vai ocorrer o arrebato e a captura e serei eu a ser encontrada pela palavra minha. A minha língua! E a saliva será sorvida com o bom de tudo que a palavra tem. 
Seus sons, seus dons, seu profundo poder de seduzir e embevecer. 
O absinto do vocábulo. A garganta engole a palavra e lambe a língua-pátria, as letras arrumadas, organizadas então em frases adornadas. Enfeites. 
Me deixo ficar assim, olhos fechados, tocando a alma, chuleando os cortes imprecisos. É esse o meu deleite. Imaginar o quanto serei ignorada ou incompreendida. 
Inflamo, exclamo e busco em tudo o furor do intenso e do rebusco que o tanto de fundura impressa em mim agora. 
Espelho d'água, fonte, fenda escura. 
Escrevo, escrevo e nada mesmo interessa, nem impressiona o outro que procuro fora, e ainda habita em mim entre a nuca e a testa, meus pensamentos que já não refuto. 
Está dentro de mim o outro que procuro, está dentro de mim a palavra, a língua e o poema, mesmo quando recuso seus preceitos, e preconceituosa renuncio rebelde à sua rima.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Um dia

Um dia quem sabe, descobrirão tudo sobre mim, e se complacente forem, me verão com bons olhos. Ou talvez com zombaria, me achem uma casa de abelha vazia ou borboleta imprudente, mas cheia, cheia de amor. Cheia. Um cruzamento de querubim decaído e demônio que se redime. Arrependidos. Ambos. Um querendo ser o outro. Verão o pouco que errei e o tanto de aflição e entenderão que eu não pequei. Eu apenas sigo tonta, uma menina e um parquinho, persigo redemoinhos, ciganos e borboletas. Vôo atrás de ties sangue e os espanto de seus ninhos só para vê-los voar. Persigo o amor em mim mesmo. Cometo pequenas iniqüidades, pecadilhos arrebatados, faço versalhadas em vão. Diluo-me todo dia atrás de encantos de rimas e paixão. Derreto feito sorvete num deserto tropical a qualquer verso mais forte. Emoção. A qualquer rima me liquefaço. Desmancho-me mesmo, confesso. Sou mole, dura, clara e escura, tudo junto e ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo. Sou duas, sou dez, uma só, que ama a fumaça e se dissipa na direção que o vento sopra. Sou eu. Consigo ser de tudo um pouco e sendo, eu sigo levando um cego, um surdo e um louco dentro do meu umbigo. E entre o nariz e o tal, habita o meu coração que por força das circunstâncias escolheu essa localização, a distância precisa entre o volúpia e a razão. Um dia descobrirão que eu quis ser só poesia, que eu quis nascer poema, quis um poetinha e quis muito ser feliz. Quis. Ser feliz! Isso era tudo o que eu queria e um dia, lá um dia, num futuro ainda escuro, entenderão que meus ardis eram puros, muito puros. Um dia. A maldade era bobagem, artifícios inocentes, vadiagem, pois eu fui só e apenas amor. Compreenderão enfim que de mim têm pouco a dizer, de bom, de mal, de verdade, quase nada. Nada a temer. Quase nada a dizer. Fui somente a pretensão de querer quem não podia com a mania de aparentar a feição de quem não sou.