quinta-feira, 30 de abril de 2009

o que eu quero...

Renoir
O que eu quero não tem nome
não tem hífen e não tem trema
Não cabe num livro
num conto
e tampouco num poema
O que eu quero é indizível
inexprimível verbo
vocábulo inefável
 insofismável pena
O que eu quero
eu não tenho
é impalpável
é infinito impulso desmedido
é compulsivo intenso
de atitude inesquecível
sonho inalcançável
sopro de passado
inexorável tempo
 O que eu quero não tem volta
Quero minha juventude...

sábado, 25 de abril de 2009

Oração pelo avesso

Penitent Magdalene. By Caravaggio. 1597
Oh Deus - se é que existes
convença esse teu servo triste
que insiste tanto em ser feliz
que não há nada a fazer
E lhe mostre então finalmente
que ele não é muito diferente
que o menor dos seres que deixas viver

Enfia pois, tua alma dentro um saco
para que ela pare de querer voar
E lhe dê um tanto de juízo e calma
para que cegue e siga sem se amotinar
Que entenda que só a morte é certa
e que é muita sorte se morrer sem dor
Para ainda na vida querer absurdos
como alegrias, prazer, além de amor

Peço-te então, meu Deus - se é que existe -
só um punhado de resignação
e que eu consiga amordaçar essa alma rebelde
e domar a fera no meu coração

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Alguém me viu por aí?

Imagino que a pior forma de solidão, seja o estar só em si mesmo. Não encontrar por dentro um mínimo de amorosidade ou intimidade com seu próprio "eu". Encontrar-se vazio de familiaridade e conteúdo, e não conseguir dar prosseguimento sequer a um monólogo.

Dentro de mim encontro um "nada" perturbado e melancólico, cheio de "senões" e justificativas implausíveis para minha própria ausência de mim em mim.

Procuro-me em vão. Não sei em que ponto da minha vida eu me perdi. Não sei exatamente onde estacionei meu tanque pesado e truculento, enquanto "minha" existência continuava, ignorando minha imaturidade e resistência em prosseguir. Não vim junto.
Talvez, tenha ficado onde acabou o meu primeiro amor, se é que o tive, ou quem sabe no primeiro beijo, no primeiro ato de sexo, na primeira decepção, no primeiro abandono. Quem sabe nas últimas tristezas.
Talvez, apenas tenha me deixado pra trás por não ter mesmo onde ir ou por não querer carregar pesos de consciência e arquivos mortos.
Suspeito de já ter me reencontrado pelo caminho, mas não tenho bem certeza se era mesmo eu ou apenas memórias. Nuances fúteis, lembranças frágeis, estranhas, longínquas, dolentes e difusas.
Fiquei onde ficam os fados, não as tarantelas. Fiquei onde tocam os réquiens e não os tangos. Fiquei na saudade de ser quem eu era e que imperceptivelmente permiti que o tempo, pintor de muitas cores e pincéis, esfumaçasse minha essência, até quase desaparecer como numa foto muito antiga em que os rostos viram manchas e o os corpos tornam-se vultos.
Sobra uma sombra tênue, sutil e sem alma, doente e quase desapercebida que ainda sobrevive alimentando-se de antidepressivos.
Alguém me viu por aí?

terça-feira, 21 de abril de 2009

Universo teu

Imagem da Nasa

A dimensão do teu instante
 é para mim imensurável
Vives num universo paralelo
onde a relatividade te tornas
 inatingível.
 “Paralelo” nem é a palavra exata
Em teu universo
somos você e eu
duas retas não colineares
Incongruentes
Cruzaram-se n’algum instante
em algum ponto,
 onde cruzaram tantas e infinitas outras retas
 Nossa intersecção entretanto
 gerou um archote luminoso
Hoje...
 lembrança geométrica
Seguimos adiante
 não perpendicularmente
Somos apenas retas
correndo paralelas
em direções opostas,
 diferentes
Nossos pontos de vistas
são tão finitos
Não há sequer três
para se fazer planos...
Entre Euclides e Einstein
 prefiro acreditar que toda reta é curva
 E que ainda
No infinito dos tempos
voltaremos a nos encontrar

Abraço

sábado, 18 de abril de 2009

Rocha com Inscrição em Aramaico Região de Los Lunas - Novo México
Que engano mais prosaico
Ele escrevia chinês
E eu lia em aramaico.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Rancor

Auto retrato - Egon Schiele

Eu quero degradar-te criatura
Na forma mais terrível de tortura
Que a dor moral pode abater
Quero banir-te para a noite escura
Pisotear-te com meu salto agulha
Quero aviltar-te com a mesma dor
Com que desdenha o meu tanto querer.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

O dia do beijo

Pablo Picasso - O beijo
O que não daria pelo rosto
 tocando a mão
que toca de volta o rosto
que toca de volta a mão
que toca o rosto...
A mão dona do rosto
 toca o rosto dono da mão
que toca o rosto...
A mão segura a mão
O rosto encosta no rosto
Tanta... tanta emoção...
O beijo beija as bocas
dos rostos donos das mãos
Tão donos da falta de razão
Por terem enfim se alcançado

sábado, 11 de abril de 2009

POEMAR

escultura de "legos" - Nathan Sawaya
Fazer poemas como quem faz contas
Um jogo de monta e desmonta
É fantasia Brinquedo...
Não é poesia!
Fazer poemas sem se rasgar
Não dá!
 O poema de verdade
tem que doer pra nascer
Tem que romper a carne
Vencer a morte
Tem que trazer o dia
Rasgar o ventre
Chegar bêbado
Embevecido!
Irromper tonto!
 Gramática?
Lapida-se!
Mas o poema em essência
 há que nascer pronto
do ventre do poeta.
Que tem que parir poesia...
O resto é semântica...

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Batalhas, borboletas e poemas



Algumas pessoas que tem apreço por mim e conhecem um pouco da minha vida, perguntam-me como consigo dar conta das minhas coisas...
Acho essa pergunta engraçada, porque minha verdadeira guerra não é combatida externamente com os problemas diários. Meu combate é sempre interno, luto comigo mesmo. Não que as dificuldades diárias não me abalem, nem me afetem, e faço um "mea-culpa " confessando que por vezes aproveito-me delas (dificuldades) para "chorar as pitangas", uma forma de lamúrio com a intenção de arrebanhar comiseração e angariar um pouco de cumplicidade e simpatia das pessoas. 
No fundo queremos mesmo ser alentados, animados. 
Queremos colinho... 
Portanto, por falta do que melhor fazer, elaborei uma estatística: Nove pessoas e meia entre dez, não são absolutamente afetadas por essa estratégia. Não faz nenhum efeito. Experiência própria! 
Talvez, meia pessoa sinta pena e se envolva verdadeiramente no problema e na dor do outro, mas o restante, que pode até esboçar uma leve compreensão, não vê a hora de fugir do chorão. Falei em "meia pessoa", não por achar espirituoso cortar pessoas ao meio como fazem os estatísticos, mas porque verdadeiramente, jamais estamos inteiros em situação alguma. 
Nem na cumplicidade, nem na obsessão, nem mesmo na compreensão da dor alheia. Aliás nem da nossa própria dor. Existe sempre uma parte de nós em fuga perpétua da outra parte. Questionando o sentimento. 
E isso é a tal guerra interior que lutamos, que eu luto diariamente. 
Tento exprimir meus combates e batalhas através de poemas, e o poema é uma forma abreviada de manifestar o essencial da prosa, pois esta viaja sem rotas, como os pensamentos, perdendo-se em psitacismos, que sempre acompanham o raciocínio humano. Pelo menos o meu. 
Mas a poesia, como já falou Rubem Alves, é a busca da Palavra essencial. 
Como é difícil e belo esse exercício de compactar e capturar todos os sentimentos e pensamentos e transformá-los em poesia. Um processo delicado na busca de sentimento e de sintaxe, em que a verdade nunca é absoluta e uma metade de dentro de nós quer escapulir. 
Porque dói parir poemas. 
Dói mais que escrever uma crônica, que é a delícia de se deixar fluir através do palavrório gostoso que viaja pelas lembranças, pelos afetos, por sonhos, experiências, opiniões, questões... É derramar-se em palavras, é enfim uma exposição do todo, somado tudo o que somos. 
Nos textos eu deixo as metades de mim conversarem e as vezes uma fala mais alto que outra. Às vezes essas metades se dividem em mais metades e novamente, infinitamente, até que eu fique picadinha em milhões de caquinhos de sentimentos e pensamentos... Incontáveis borboletinhas que aprenderam a falar, gritar, umas só sorriem, outras choram. Repentinamente se juntam novamente, mas nunca chegam a ser um Eu inteiro... 
Eu sou sempre duas ao menos e milhares ao mais. 
Os problemas cá da Terra, parecem tão pequenos quando nosso eu está voltado para dentro, buscando expressar-se... Toda dor diária fica pequena diante da imensidão universal que cabe na alma humana. Suas pequenas e grandes dúvidas, pequenas e grandes crenças. Pequenas e grandes batalhas... 
Para tentar ser mais sintética, recorro novamente ao meu querido Rubem Alves: "A gente só cria quando aquilo que se tem não corresponde ao sonho. Todo ato de criação tem por objetivo realizar um sonho. E quando o sonho se realiza, vem a experiência de alegria."   
Então, se para criar é preciso estar não muito feliz eu aceito a infelicidade como uma benção, pois escrever é maior que todo prazer.

sábado, 4 de abril de 2009

Sinfonia


No encontro meu e teu
nessa pauta visceral
Despenca e desafina o “dó” final
Que de gozo e de cansaço
Cai “glissando” meio tom
Numa “coma” sensual...

quinta-feira, 2 de abril de 2009

O que será (À flor da pele)

Chico Buarque - 1976 O que será que me dá Que me bole por dentro, será que me dá Que brota à flor da pele, será que me dá E que me sobe às faces e me faz corar E que me salta aos olhos a me atraiçoar E que me aperta o peito e me faz confessar O que não tem mais jeito de dissimular E que nem é direito ninguém recusar E que me faz mendigo, me faz suplicar O que não tem medida, nem nunca terá O que não tem remédio, nem nunca terá O que não tem receita O que será que será Que dá dentro da gente e que não devia Que desacata a gente, que é revelia Que é feito uma aguardente que não sacia Que é feito estar doente de uma folia Que nem dez mandamentos vão conciliar Nem todos os unguentos vão aliviar Nem todos os quebrantos, toda alquimia Que nem todos os santos, será que será O que não tem descanso, nem nunca terá O que não tem cansaço, nem nunca terá O que não tem limite O que será que me dá Que me queima por dentro, será que me dá Que me perturba o sono, será que me dá Que todos os tremores que vêm agitar Que todos os ardores me vêm atiçar Que todos os suores me vêm encharcar Que todos os meus órgãos estão a clamar E uma aflição medonha me faz implorar O que não tem vergonha, nem nunca terá O que não tem governo, nem nunca terá O que não tem juízo

O que será? A flor da pele

domingo, 29 de março de 2009

Onde eu estava?

Sou uma pessoa com algumas aptidões. 
Até aí, nada de novo. Quem não é? Que mulher não é? 
Mas essas várias aptidões ou atribuições, como queiram, não são elas sempre conviventes e quiçá coniventes. Algumas tentam sabotar outras... 
Meus amigos, benevolentes, chamam isso de "múltiplos talentos", o que a modéstia não me permite aceitar e a consciência não me permite afiançar... 
Formada em arquitetura com especialização em urbanismo, já fui atriz por amar o teatro e sou cantora por amar cantar, "porque o instante existe..." 
O "escrever" não é escolha. É compulsão incontrolável! 
Reflito sobre esse tema, esse problema, esse dilema... 
Eu adoro uma rima pobre. 
Especulo se essa "multiplicidade" na verdade, não dilui todos esses aspectos, esses "talentos" considerando que ainda não enumerei o exercício nada fácil de ser mãe, esposa, dona de casa e funcionária pública. 
No meu tempo livre eu choro e ainda sobra tempo, eventualmente, de me depilar e fazer as unhas, essas coisas de mulherzinha, que afinal ninguém é de ferro... 
Tudo assim, misturado num balaio, surjo eu meio confusa, difusa. Multiplicada pelas vontades e dividida pelas atividades. 
Sinto-me às vezes no olho do furacão, girando e depois arremessada a um parque de diversões como um coelhinho assustado tendo que escolher em qual casinha esconder-se da gritaria das crianças ensandecidas pela alegria e expectativa. 
Na verdade, não sou um coelho! Não sou nenhum bicho bonzinho. 
Por vezes penso que sou mesmo uma fera. 
Uma fera calma, é verdade, quando bem "alimentada". Uma fera domesticada, mantida num cativeiro mais ou menos amoroso... Uma fera feliz... 
Costumo divagar em meus escritos tanto quanto em meus pensamentos, passeando por temas diversos... 
Sou deficiente em focar. 
Tenho uma cabeça feminina onde assuntos bailam e pululam com a desenvoltura e leveza da Primeira bailarina. Devaneio entre lembrar-me de comprar a ração do cachorro e o Império Bizantino, que tenho que explicar à minha filha para a prova de História. Vou do "pet shop" à Constantinopla - atual Istambul - em segundos; e durante esses parcos segundos, uma canção não me sai da cabeça, e um verso que não quero "poetar" segue-me se repetindo no coração dos meus ouvidos. 
Lembro-me de repente, que hoje é o dia da coleta de lixo reciclável, tenho que fazer a minha parte pelo planeta. Caramba! Esqueci novamente de levar as pilhas e baterias usadas para o depósito. 
Vem-me à cabeça, sei lá porque, o "kamikaze" que depois de bater na esposa com um extintor de incêndio, roubou um avião e se lançou com este, levando a filhinha, sobre um "Shopping Center". 
Sinto o medo da criança... 
Sinto medo pelas crianças... 
Sinto medo das pessoas, mas não tenho muito tempo para isso... 
Queria logo chegar em casa para escrever o poema que quer nascer a todo custo. 
Se demorar demais, ele vai desistir de mim, volúveis e voláteis como os poemas costumam ser... Vai se dispersar no ar e se esquecer de mim e será mais um poema perdido entre tantos que me escapolem todos os dias. E um poema perdido é um poema perdido... 
Do que era mesmo que eu estava falando? Releio do começo... Ah sim, da pluralidade de aptidões. 
Intuo que com a variedade de formas com que busco me expressar, duvido fazer bem qualquer uma delas, exatamente por enxergar muitos caminhos e vagar perdida ora por um, ora por outro. Isso me lembra que preciso urgente trocar os pneus do meu carro, e tenho que refazer o parecer técnico de um processo em que estou trabalhando e ainda escolher um novo repertório para um evento. 
Preciso que aprender a fazer listas em vez de poemas