quarta-feira, 17 de junho de 2009

sobre mim



Tenho o coração barroco e rebuscado
com santuários góticos depredados
Pelo lirismo afoito dos amantes
E medonhos sonhos de infantes
cheios de eufóricas e ornamentais tormentas.

Adolescente pasmo ante a renascença
Cego-me defronte ao iluminismo
sem conseguir alçar o céu impressionista
Comove-me minha verve da descrença
 e o fatalismo romântico e escapista,
de ideal e sentimentalismo.

Mas também sou lá de sutilezas e metáforas
E por vezes me entalho um verso a canivete
Importa só que sangre todo dia
 e durante algumas horas da viagem
Para que a ferida nunca cicatrize
E que o poema sempre se apresente
numa dramática e dolorosa
tatuagem.

domingo, 14 de junho de 2009

logomaquia

CARAVAGGIO: Judith Beheading Holofernes.

Será que faço poesia?
Suspeito ser só mania
Ou mesmo idiossincrasia
Para simples proteção

Poetas são os “Pessoas”!
 “Drumond” é que é poesia!
 Escrevem com pura magia
Dia e noite
Noite e dia
Como uma religião
Eu sou somente aprendiz
Padeço de sazonal elegia
Escrevo pela hipalgesia
Para ficar bem vazia
de dor e de emoção
Não Não faço poesia...
Só sofro de lirismo-bulimia...

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Quando eu canto

Juro que não estou me gabando, mas fico impressionada com minha própria "capacidade" mental de pensar (pleonasmo hiper vicioso) e fazer várias coisas ao mesmo tempo. Não significa obviamente, que sejam todas profícuas ou positivas, muito menos que eu seja competente por conta disso. Pelo contrario! Me vejo atolada e atordoada com tantos pensamentos durante alguma atividade e isso me faz perder o foco, diluindo minha atenção. Explico-me. Na véspera de feriado, fui contratada para cantar num hotel bem bacana em Campos do Jordão, cujos responsáveis calcularam mal a "animação" dos hóspedes que estavam chegando para o feriado de "Corpus Christi". Promoveram várias atividades, entre elas uma cantora (eu) e um pianista no bar da lareira. Quem conhece Campos sabe que é uma cidade bastante fria nessa época do ano e o chamado bar da lareira desse hotel especificamente, é bastante aconchegante. Já cantei ali várias vezes. O fato é que os hóspedes passavam sucessivamente pelo bar em direção ao restaurante, ouviam um pouquinho de música e iam jantar. Esvaziava de novo. Tudo bem, pois depois do jantar, é de praxe parar por ali, tomar um licor, fumar um charuto (hargh!), e curtir uma "boa" música. Alguma coisa deu errado... Eles jantavam e desapareciam. Especulei o que poderia ser. Talvez porque o bar da lareira era o lugar onde os apreciadores de charutos se encontravam e agora é proibido fumar no local que antes era destinado a eles. Confesso que para uma cantora, isso é muito melhor. Cantar e inalar fumaça de charutos cubanos é difícil... Enfim, o fato de ser proibido fumar ali pode ser um dos motivos do esvaziamento do local. Tentando ser justa, imaginei se eu estava cantando mal, ou se o repertório não era do agrado, ou quem sabe, (amenizei para o meu lado) estavam apenas, todos muito cansados da viagem já que a faixa etária de frequentadores do dito hotel é bem acima dos quarenta. Enfim, cantei a noite inteira para meia dúzia de "gatos pingados". Isso não me afeta muito (só um tantinho), mas a troca de energia numa apresentação é cinqüenta por cento do sucesso dela. Quando a voz vem do coração ela é muito mais bonita. Quando parei de cantar em bailes, alguns anos atrás e resolvi cantar em bares, já se foram centenas de madrugadas e já houve muitas noites memoráveis e outras nem tanto, em que cantava para manobristas e garçons. Não que estes trabalhadores da noite não mereçam um tostão da minha voz, mas é muito frustrante quando acontece de não ter público. Existe só uma coisa pior que falta de público, é quando eles estão presentes só de corpo. Como diz Jô Soares, é quando a platéia não é talentosa. Não vou me culpar, porque na maioria das vezes o meu repertório funciona muito bem para esse trabalho. Voltando ao que eu queria dizer, é que enquanto eu cantava, tudo isso me veio à cabeça e não sendo o suficiente para me distrair, ainda comecei a filosofar acerca da vida. Fiquei pensando porque estamos por aqui, nesse planeta de provas e expiações, e o que fazer quando não se tem mais grandes paixões, nem muitos sonhos, nem motivação. Eu cantava e pensava (ao mesmo tempo e sem controle), como viver é sem sentido, e o quanto estou me sentindo triste sem saber bem por quê. Provavelmente, se o bar estivesse cheio, com pessoas ouvindo e apreciando eu me sentisse diferente, mas naquele momento me veio essa dor das dúvidas existenciais. Tudo tem passado muito rápido e pouco consigo reter. Junto com cantar, ler a letra (porque eu não consigo decorar nenhuma), sentir-me depreciada e filosofar, eu ainda tinha um poema que insistia em querer se fazer, mas que eu o detive antes que me perdesse ainda mais. Era um poema sobre quem não está mais amando ou apaixonado por nada nem ninguém e o quanto isso torna a vida estranha, triste e sem sentido. É como ter desistido de viver. Era um poema sobre um amor que saiu à francesa, foi deixando o outro devagarzinho, até desaparecer, não sem antes magoar bastante. Um poema de sobrevivência. Enfim, ele não sobreviveu. Morreu antes de nascer. Existem poemas assim... Que ficam morando só no pensamento e depois dispersam-se como as sensações momentâneas. Esse escrito é só um texto sem compromisso, sem intenção. É só um desabafo esquisito, uma constatação do quanto tudo é efêmero. Só pra terminar de compartilhar meu desvario noturno, enquanto fazia tudo o que já descrevi, ainda notei quase sem querer, a ostentação das pessoas entre botas caras, casacos de peles, bolsas de grife e me veio à cabeça os milhares de brasileiros que passam fome e frio e o quanto esse nosso país é desigual e injusto. Acho que não quero mais cantar...

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Abusada



Quero voltar a ser menina
não de sete, nem dezessete
Menina mulher de vinte e sete
Pronta para os pecados
cometendo-os pela vida
Namorar as escondida
 e passear aí pouco vestida
transparente e enfeitada
Quero muito beijar na boca
Ter ao menos três namorados
um pra de noite e dois para o dia
e um amante por garantia
para um momento de solidão
Pois se eu não for muito amada
que seja ao menos desejada
Ou no mínimo bem usada
bem mimada
bem beijada
Só não quero ficar guardada
na prateleira de um coração.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Vacância


Desisto da vaga anteriormente desejada
Meu currículo atende muitos requisitos
Mas o perfil do patrão
não se encaixa mais aos anseios
da candidata.

sábado, 30 de maio de 2009

abstração


Amordaço as rimas dos meus pensamentos, pois me atormentam torná-las proativas e entre a nuca e a testa elas persistem, tecendo um fio que interliga o coração embriagado ao embrião sutil do entendimento. Eu sou "noir", sou lua, solidão. 
Quero estender palavras no varal e esparramar a escrita no quintal, e olha eu de novo atrás de rimas. Socorro! Alguém me impeça, segurem minhas mãos e algemem-me depressa. Importa mesmo é exprimir o alumbro dessa vida, pois que viver é mesmo uma empreitada e eu recuso a escusa das feridas. 
Não é desculpa a dor, a dor é nada e eu não quero contar métrica, nem seguir ritos. 
Me forço a não pulsar no ritmo. 
A liberdade é tudo o que eu queria. 
Ser livre para doer em sustenido, pois que o bemol desce e eu quero arriba, seguir rio acima, arrebanhar os arcos coloridos no céu soturno do anoitecer. 
Se sou "noir" é só a noite que me anima, e se fosse um pássaro, que pássaro seria? Noturno. E se fosse poeta como quem escreveria? 
Decisão injusta já que sempre me apaixono e o fio que liga o timo aos neurônios retesa, me gela e me espanta, pois que são tão tantos os poetas que me afino que desafino tentando cantá-los juntos. 
São tantas formas, tantas fontes, tanto estímulo, que meu costume vagueia sem estilo, estuprado por anseios de palavras, poemas e raciocínio. Não sei mais se quero vodka ou cappuccino.
Talvez só a água enxágue a minha alma. 
Mas vou por aí com a mente ventilada e estoica sobrevivente. 
A louca mantendo a calma como quem ainda espera alguma coisa, por mais que seja deselegante a busca, insisto em achar que num momento incerto vai ocorrer o arrebato e a captura e serei eu a ser encontrada pela palavra minha. A minha língua! E a saliva será sorvida com o bom de tudo que a palavra tem. 
Seus sons, seus dons, seu profundo poder de seduzir e embevecer. 
O absinto do vocábulo. A garganta engole a palavra e lambe a língua-pátria, as letras arrumadas, organizadas então em frases adornadas. Enfeites. 
Me deixo ficar assim, olhos fechados, tocando a alma, chuleando os cortes imprecisos. É esse o meu deleite. Imaginar o quanto serei ignorada ou incompreendida. 
Inflamo, exclamo e busco em tudo o furor do intenso e do rebusco que o tanto de fundura impressa em mim agora. 
Espelho d'água, fonte, fenda escura. 
Escrevo, escrevo e nada mesmo interessa, nem impressiona o outro que procuro fora, e ainda habita em mim entre a nuca e a testa, meus pensamentos que já não refuto. 
Está dentro de mim o outro que procuro, está dentro de mim a palavra, a língua e o poema, mesmo quando recuso seus preceitos, e preconceituosa renuncio rebelde à sua rima.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

olha a rima que dá

Foto montagem

Quero um pouco de Miró
e um pouco de Gaudi
 Quero um tanto de Dicró
E outro tanto de Aldir
 Quero de todos um pouco
E de outros tantos ainda mais
Quero um samba debochado no altar das catedrais
Num barroco barracão
Gótico
 Catalão
Vou musicar as preces ritmadas
e deixá-las ainda oração
apenas mais engraçadas
 para alegria dos Santos e de Deus
E esculpir na imagem a poesia
e na arquitetura edificar viagens
Sambar nas telas e poetar loucuras
E pintar nas passarelas
Números e constelações
E num enredo definitivamente sem sentido
começar a cantar "olha a rima que dá"...


segunda-feira, 25 de maio de 2009

Receita errada

 
Eu quis fazer um bolo saboroso
um deleite doce e apetitoso
pra se comer junto a um café quentinho
num entardecer da vida aconchego
Uma guloseima que não mata a fome
mas que lambuza de prazer
a língua de quem come
e nutre a alma de esperança

Pedia a receita igual medida
em quantidades infinitas
do trigo do amor e da amizade
E duas xícaras do açúcar da paixão
Uma colher de afeto era o fermento.
E tudo se misturava dentro da cumbuca do coração
Podia adicionar um naco de saudade e de história
Eu os tenho bem guardados no armário na memória
E uma pitada de sal bem ao meu gosto...

E foi assim, que por medo de ficar insosso
cometi o engano indesculpável
O sal era o egoísmo era a cobrança
que deveria ser usado só um tantinho
com muita temperança...
para neutralizar o melado das lembranças
e realçar o sabor da emoção.

Perdi-me entre tantos ingredientes
Errei a mão sem ter percebido
Pus para assar o erro cometido
e agora eu tenho um bolo intragável
Não há ninguém para comer comigo
Não é possível de ser digerido
Não é passível de ser mastigado
Ficou salgado e está tudo perdido

Estou faminta frente ao bolo desandado
E o café esfria na mesa da solidão
Tenho ainda tantos ingredientes
Tenho o trigo do amor e da amizade
E a afeição que faz crescer a massa
Ainda resta paixão dulcificada
E na despensa, história o bastante
E saudades, então, eu tenho aos montes

O sal do egoísmo, eu joguei fora
O saco inteiro pra não ter tentação...
Eu usaria em seu lugar se me emprestasse
Uma xícara cheia de perdão
E eu faria outro bolo novamente
E daria todo ele de presente
Ao poeta que me alimenta o coração.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

partes

 
Na ausência de me saber
É em que me fio...
Na parte de mim que desconheço
É em que me guio...
Meu lado escuro é o único que ilumina...
Por que o que não sei é o que mais quero?
Porque o que já sei não satisfaz?
Nessa falsa trégua
Entre mim e eu
A parte de mim que mais dá medo...
É o cofre onde escondo os meus segredos.
É o lugar em mim que me fascina
É a parte de mim que me apraz.

terça-feira, 19 de maio de 2009

As vezes

blue - Nathan Sawaya

Sinto-me as vezes um arremedo
Uma chacota
Uma anedota de mau gosto
Um brinquedo
Um "encosto"
Um estorvo
Um incidente inconveniente
Insistente...
Simulacro de gente
Quase nada!
Nem poeta
arquiteta
cantora
Nem pessoa...
Piada sem graça
 Impostora!
Só as vezes...

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Um dia

Um dia quem sabe, descobrirão tudo sobre mim, e se complacente forem, me verão com bons olhos. Ou talvez com zombaria, me achem uma casa de abelha vazia ou borboleta imprudente, mas cheia, cheia de amor. Cheia. Um cruzamento de querubim decaído e demônio que se redime. Arrependidos. Ambos. Um querendo ser o outro. Verão o pouco que errei e o tanto de aflição e entenderão que eu não pequei. Eu apenas sigo tonta, uma menina e um parquinho, persigo redemoinhos, ciganos e borboletas. Vôo atrás de ties sangue e os espanto de seus ninhos só para vê-los voar. Persigo o amor em mim mesmo. Cometo pequenas iniqüidades, pecadilhos arrebatados, faço versalhadas em vão. Diluo-me todo dia atrás de encantos de rimas e paixão. Derreto feito sorvete num deserto tropical a qualquer verso mais forte. Emoção. A qualquer rima me liquefaço. Desmancho-me mesmo, confesso. Sou mole, dura, clara e escura, tudo junto e ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo. Sou duas, sou dez, uma só, que ama a fumaça e se dissipa na direção que o vento sopra. Sou eu. Consigo ser de tudo um pouco e sendo, eu sigo levando um cego, um surdo e um louco dentro do meu umbigo. E entre o nariz e o tal, habita o meu coração que por força das circunstâncias escolheu essa localização, a distância precisa entre o volúpia e a razão. Um dia descobrirão que eu quis ser só poesia, que eu quis nascer poema, quis um poetinha e quis muito ser feliz. Quis. Ser feliz! Isso era tudo o que eu queria e um dia, lá um dia, num futuro ainda escuro, entenderão que meus ardis eram puros, muito puros. Um dia. A maldade era bobagem, artifícios inocentes, vadiagem, pois eu fui só e apenas amor. Compreenderão enfim que de mim têm pouco a dizer, de bom, de mal, de verdade, quase nada. Nada a temer. Quase nada a dizer. Fui somente a pretensão de querer quem não podia com a mania de aparentar a feição de quem não sou.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Preferências


Prefiro argila
à pedra firme
Argila se amolda
se adapta
e macia se redime
Prefiro pó
à pedra dura
Poeira
revoa
redemoinha
e feliz se reestrutura
Pedra firme?
Um mineral
com ponto de vista
constante
Piatã ignorante!

domingo, 10 de maio de 2009

Anoiteceu

Sem referências de autoria da imagem

Anoitece...
Olho o céu
Tanto a dizer
Perco-me em filosofia...
Pensamentos segmentados
Sensações truncadas
Raciocínio incompleto
Lento...
Disperso...
Nostalgia...
Química demais
Cérebro cansado
Hormônios suponho
Vago vaga...
Já perdi o fio da meada
outra vez
Tinha tanto a dizer
do céu que escureceu
Esqueci ...

quinta-feira, 7 de maio de 2009

De você


De você eu queria mesmo
a esperança ainda que ilusória
de um julho quente
de um ano qualquer
irrelevante
pois que por mais ausente
que estivesse
e distante
a poesia de um futuro
me aqueceria
a alma no presente.

domingo, 3 de maio de 2009

Perguntinha...

Se o poeta não escreve... Será que ele não tem pena? Não me serve um poeta sem poema...