A cor que eu vejo
você não vê,
porque sou eu
que olho
os teus olhos
e leio
o profundo
infinito de você.
você não vê,
porque sou eu
que olho
os teus olhos
e leio
o profundo
infinito de você.
Antoine Watteau - Cupido desarmado
Amo os indisponíveis
os inalcançáveis
os impossíveis
os imperdoáveis
os inadequados
e os inadmissíveis
Os que nunca foram
os que não serão
os que já passaram
e os que passarão
Amo o que não virá
o que nunca mais voltará
Amo até o que não é vivo
Amo o irreal
o virtual
e o antigo
Amo
o desconhecido
e o amigo
E amo tanto e amo todos
que amo até
o que está comigo...
Elton John foi minha primeira paixão!
Quem diria que eu confessaria isso aqui assim tão corajosamente? Pois é, aos 11 anos eu me apaixonei por Elton John e sonhava conhecer o cara que cantava com aquela voz cálida e tão máscula o hit do momento, que era a música “Goodbye Yellow Brick Road”. Paixão platônica.
Menina ingênua (juro) nem imaginava as nuances dos desejos humanos e nada sabia sobre homossexualismo.
Naqueles tempos só sabíamos o que aprendíamos nas brincadeiras de rua, nas conversas com as amiguinhas e posso jurar que este não era um assunto de relevância, ao menos para nós. Nada disso foi explicado em casa ou na escola e, portanto nem desconfiávamos. Talvez até fosse um tabu na época e como não existia a internet com sua ilimitada enciclopédia mundial e seus sites de relacionamentos além de outras diversas possibilidades, não tínhamos como saber de muita coisa além do nosso universo restrito. Também não existiam canais de fofocas nem TV a cabo. Como será que sobrevivemos a isso?
Nossa única semelhança com as meninas atuais é que até hoje, se uma garota tem um ídolo, ela tem esperança (leia-se "obsessão") de que um dia irá conhecê-lo e ele se apaixonará por ela.
Era assim comigo e com Elton. Não me lembro de jamais ter visto seu rosto totalmente. Apenas nas fotos esdrúxulas das capas de seus discos de vinil, que eu, menina de cidade do interior e filha de professores, pouco tinha acesso.
Chegavam até nós, algumas coleções de música clássica que meu pai comprava com dificuldades semanalmente ou quinzenalmente nas bancas de revista. Tínhamos também uma coletânea da Abril Cultural de MPB que me possibilitou ser apresentada aos clássicos da nossa música popular, desde Ari Barroso, Noel Rosa, Dolores Duran, Herivelto Martins entre outros, passando pela bossa nova chegando até a tropicália. Não posso negar que isso me trouxe uma boa bagagem cultural e agradeço a meu pai por isso, mas eu queria mesmo o vinil do tal inglês.
Depois de tanto pedir, ganhei enfim o Long Play “Goodbye Yellow Brick Road” no meu aniversário de onze ou doze anos. Quanta emoção! O primeiro LP ninguém esquece! Eu ouvia na "vitrolinha" coletiva que eu e meus irmãos tínhamos ganhado no natal anterior.
Aquele homem cantando me encantava, e eu decorava as letras que nem sabia o significado e lembrando-me agora do último show dele recentemente no Brasil, que foi televisionado com a legenda das letras traduzidas, melhor a ignorância. Naquele tempo, até chorava comungando a melodia com minhas emoções hormonais.
Percebo hoje, que isso começava a delinear que tipo de mulher eu seria. Não pelo fato de gostar de pop inglês ou da música, mas pelo tipo de pessoa que me atraia. Nada de óbvio. Não gostava do menino bonito da “Família do-ré-mi”. Imagine! Não tem a menor graça! Eu tinha mesmo é que me apaixonar pelo homossexual inglês, problemático, que gostava de sapatos plataforma, chapéus e óculos gigantes. E nem bonito era, coisa que só ficou explícita, muito tempo depois.
A beleza nunca foi apreendida por mim da forma genérica e acho positivo que existam pessoas de “gosto duvidoso”, pois que a unanimidade tira as chances do que é diferente e fora dos padrões. Entendo estética como sendo extremamente pessoal e no meu caso talvez seja atávico. Desculpa vô.
Infelizmente, ou felizmente, minha paixão por Elton foi substituída rapidamente quando meu pai apareceu em casa com o LP “Construção” de Chico Buarque que tinha sido lançado alguns anos antes, em 71.
Paixão fulminante que confesso, sem reservas, resiste até hoje. Posso até afirmar que Chico Buarque foi o grande amor da minha vida e que tive que terminar com ele por conta da unilateralidade. Neste caso, devo render-me à unanimidade e até por isso, não houve muitos problemas quando "namorávamos". Meus pais até aprovavam “nosso” amor, mas cansei de sofrer pela falta da contrapartida.
Como nunca gostei de solidão, na minha leviandade de menina, logo depois de "terminar" com Chico Buarque, quase apaixonei-me novamente. Agora por um outro inglês, também estranho, chamado Freddie Mercury, que na época tinha cabelos compridos e usava um macacão branco decotado e colado ao corpo e era vocalista do Queen. Seus trajes eram um pouco ousados, mas muito interessantes. Ainda não sabia que ele também não era “hétero” (acho que nem ele sabia), coisa que muito pouca diferença faria na minha vida, até que descobri que ele era casado. Não podia gostar de homens casados. Era uma menina "direita" e, portanto abdiquei estoicamente de Freddie.
Totalmente desiludida, comecei a ler poemas e volúvel com sou, de cara me apaixonei por Vinícius de Moraes, que além de poeta, era compositor e boêmio, coisa que sei lá porque, me atraiu muitíssimo. Na época, acho que ele estava separado da oitava mulher e jurei para mim mesma, ainda menor de idade, que iria conhecê-lo e seria a nona e última esposa dessa enorme lista.
Parece que ele se casou de novo (não foi comigo), e faleceu antes de saber das minhas intenções!
E assim, sem mais nem menos fiquei viúva do poetinha.
Em 09 de julho de 1980 (data de falecimento do Vinícius) eu desisti de ter ídolos, mas continuo apaixonada por Chico Buarque.
CARAVAGGIO: Judith Beheading Holofernes.