sábado, 12 de junho de 2010

aprendendo


          Like a flower in the breeze - Amanda Cass

          Estou começando a achar a vida divertida.
          Que o destino não me pregue uma peça ingrata por sentir-me assim.
          É uma sensação que só a maturidade traz e isso é impagável.
          No frigir dos ovos, estou no lucro.
          Tenho decidido olhar minha existência através da janelinha dos meus olhos como se assistisse a uma aprazível comédia.
          A despeito das tragédias humanas, que não sou insensível e das minhas próprias tragédias, começo a gostar verdadeiramente de estar viva.
          Essa percepção só se tem em dois momentos da vida: quando se é muito jovem, por volta dos vinte anos e só retorna depois dos quarenta. Para alguns demora mais.
          Não troco esse sentir por nada. Nem pela juventude!
          Trocaria outras coisas, se possível fosse, como um corpo mais rijo e magro, uma pele mais viçosa, e a disposição para divertir-me mais intensamente.
          Mas teria que ter algo dispensável para dar em troca, porém não quero me desfazer de nada do que trago comigo agora, que tudo tem importância e nada de mim, nesse momento, é supérfluo.
          Sou repleta de paciência, de compaixão e de amor, e não rescindo da minha madureza, meu bem estar e da impagável sensação de liberdade. Liberdade sim!
          Liberdade de não ter precisão de ser o que esperam que eu seja, pois definitivamente sou o que me tornei: a somatória do que já fui, as experiências que tive e os sentimentos que conheci.
          Prazeres, dores, ansiedades, alegrias, saudades, angústias, expectativas, entre outros sentimentos, construíram a pessoa que sou.
          Livre dessa responsabilidade, caminho mais leve e alcancei definitivamente uma alma mais serena.
          Um “estar” que não tem quase nada a perder.
          Evidente que ainda tenho sonhos e desejos a realizar, mas a grata consciência de que dependem exclusivamente de mim e de mais ninguém, me apazigua a alma.
          Posso escolher como estar - a menos que me venha alguma dor incompatível com a delicadeza de viver assim - sem culpas.
          Vou andar por aí do jeito que meu humor diário me solicitar.
          Irão dizer talvez, que estou começando a ficar excêntrica nos modos, no jeito de ser ou de vestir, mas isso também já não me incomoda.
          Não é que é bom?
          Ando sem medo do tempo, agora que não transporto mais a sensação de urgência pelas coisas que ainda não fiz. Vem-me a constatação suave de que o que não foi feito, não era para ser, ou ainda será no seu devido tempo.
          Talvez, isso seja a tal da “felicidade” que a gente almeja durante toda a vida.
          Já não existe a preocupação de insatisfação eterna com a aparência, até porque se compreende que esta é efêmera e o tempo, inexorável.
           Acaba por ser um alívio.
          Claro está (para mim ao menos), que não vou entregar os pontos facilmente e me deixar enfear muito, enquanto for razoável. Ainda resta um pouquinho de aceitável vaidade.
          Uma senhora (de 90 anos) me disse: - Uma mulher tem que ser sempre prestimosa. Eu adorei a palavra “prestimosa”, e ela é um exemplo disso. Apesar de engelhada pelos anos, está sempre perfumada, vestida com apuro, com brincos e outros adornos, mesmo quando está adoentada.
          Além do mais, tenho que confessar que meu juízo de “beleza” modificou bastante ao longo dessa minha viagem de existir.
          Obviamente, sinto-me assim por estar saudável, por sentir-me segura de quem sou e também porque ainda não cheguei ao ponto de me preocupar excessivamente com o invariável advento da morte.
          Esse texto é só uma celebração comigo mesma por estar me sentindo bem e gostaria de compartilhar com todo mundo essa paz de agora, pois sabe-se lá como vou estar me sentindo amanhã...

quarta-feira, 9 de junho de 2010


Perguntinhas:


Qual o pior sofrimento:
A negligência da presença ausente
ou a dor da ausência presente?

O que mais destrói a alma:
O amor impossível
ou a paixão quando acalma?

Porque o sentimento descabido
se tanto sentir
não faz nenhum sentido?

Carência espiritual ou moral?
Mal o homem ficou em pé
e já inventou um ritual...

O que é mais triste?
Se a presa não cai
ou se a aranha desiste?

Respira inspiração...
Qual é o anjo que sopra
no momento da criação?

sábado, 5 de junho de 2010

Versos de cor

Festa - Rossana Masiero


 
 
Tem canetas que jorram poesia
de tintas carmim
azuis vertentes
e tem poetas que de tantas palavras
ficam prosas

Enluarados em
genialidade multicores
expandem-se por outros berros
Exaurem-se
Expurgam-se cavoucando
cruelmente fundo
o que pode das vísceras
de si

A despeito do que dói

Tem versos que não se abalam
Tem rimas e nem sempre
Incongruências
e consistências

Sem rótulos
Sem escrúpulos
Sem lei

Eu leio, leio e deliro

É a poesia
versando versátil
pelos que são
que estão
e não...


À Fouad Talal cujos esprirros inspiraram este poema: http://versosdecor.blogspot.com




quarta-feira, 2 de junho de 2010

a louca

Foto do google


Algoz de mim mesma

reconstruo os elos

dos meus grilhões

Pois se nada me amarrar

eu pego carona no vento

e não volto nunca mais.

.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O tempo...

Rossana Masiero



Adição de ritos de passagens
ininterruptos
imperceptíveis
Momentos subtraídos
da vida que logrou
Existência do agora
com memória do
que passou
Saudade...

.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

uma pausa


Amigos
Dias 28, 29 e 30 de maio ficarei ausente no blog.
Estarei a trabalho em São Francisco Xavier (distrito de São José dos Campos - SP) no III Festival da Mantiqueira, evento literário que vem ganhando proporções e qualidade maiores a cada ano.
Quem estiver por perto, informo que o passeio vale muito a pena pelo evento e pela beleza das montanhas.
Ah! Tem livro meu na Tenda da "Fundação Cultural Cassiano Ricardo".
Beijos e bom fim de semana!
Rossana

quarta-feira, 26 de maio de 2010

das variantes


Reverencio gotas
sopros e vapores
Energias inalcançáveis
impalpáveis
invisíveis
Tento tocar o intangível
a demente...
Quanto mais impossível
mais seduzida
Cobiço o imensurável
Ardo pelo inusitado
Anseio pelo insustentável
E caminho por pontes
instáveis e inseguras
a imprudente...
Faço questão
de ser suspeita
por andar inabalável
e fora de prumo
à margem do mundo.

Rossana Masiero

sexta-feira, 21 de maio de 2010

volta por cima



Reverbero
no revertério
Reverto
o revés em verso
Retomo o reverso
do inverso
e retorno
poesia.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Invernando...


No inverno
ensimesmada
me recolho
Hiberno
Me ponho de molho
Tiro licença
de mim
Fico mais calada
Agasalho-me da vida
Visto minha
carranca emburrada
e me encapsulo
Enquanto enclausurada
metamorfoseio
em silêncio
 Pois que na primavera

Espera...

Que eu medro sem medo
rompo o casulo
Vestindo
meu melhor vestido
de festa

sexta-feira, 14 de maio de 2010

movimento


Nem parnasiana
Nem realista
um pouco pessimista
um tanto romântica
Nada quântica
Número inteiro
Fujo da métrica
Capto símbolos
Gosto de palavras
como "bruma"
e "névoa"
Desfocada
Sem freios
o reboque
a que me atrelo
Sou sem regras
As vezes eu fujo
das rimas
As vezes não
Gosto de palavras
em desuso
"Claviculário"
Onde guardo as
chaves da poesia
E num ritmo
nem sempre azado
me movimento.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Sobre o pudor

Tela Mary Cassatt

Eita palavrinha feia: pudor.

Mas seus significados sempre permearam meu cerne desde menininha. Como casca. Não que goste de ser pudorenta, que é uma palavra ainda mais feia, até por não ser coisa que se escolha ser.

Pudor não é vergonha, tampouco hipocrisia. É um jeito etéreo, que a delicadeza nos empresta na meninice e que não se desveste como uma roupa que já não serve.

Pudor é uma segunda pele que vai amoldando-se ao nosso corpo quando crescemos, tomando a mesma forma, esticando e esticando. As vezes nos comprime.

O pudor reprime.

Outras vezes se rompe e é assim que sabemos que uma pessoa é despudorada. Quando ela é livre dessa película de compostura e reservas. Não sei se gosto de usar, mas em mim, o pudor me contém, apesar de desfiado, esburacado...

Eu tenho grande atração por gente assim despudorada, que fala dos enigmas do existir com descaramento, que age impulsionada apenas pelo prazer de haver e às vezes pelo prazer em abismar almas acanhadas como a minha, que se acabrunham fragilmente.

Tem coisas que minha suscetibilidade insiste em não aceitar. Melindro-me até hoje como uma menininha parva.

Tenho alma de consistência pastosa, dada a sabores agridoces que nunca se combinaram. Algo assim como vinagre e sorvete no mesmo pote, que não tenho precisão de detalhar.

Só quero mesmo é delinear vagamente do que eu sou feita para que seja possível eu me reconhecer nesse sabor travento.

E que nesse processo de reconhecimento de mim eu consiga ter compreensão de outros, por esse meu jeito. Acho que ando carente de aceitação, coisa que nunca me entusiasmou.

Talvez ande mesmo precisando de empatia, cumplicidade, ou apenas respeito

Meu pudor não é manha, pois que não sou sonsa, e as vezes finjo que não o tenho e ensaio um tipo assim arredio, para soltar um tanto das feras que abrigo e que tem garras retráteis, que vez ou outra me arranham querendo sair.

É só minha maneira de existir .

domingo, 9 de maio de 2010

Deixa, mãe...

Claude Monet

Mãe, posso nascer de novo?
Agora eu já aprendi
como a gente tem que ser.
Você nunca me disse
como ser ser quando crescer...
Pois que agora
eu ando toda errada,
sempre pendendo prum lado,
que nunca é o lado certo.
Tenho a alma desconjuntada, mãe.
Ai, mãe: Sei que alma não tem junta!
Mas a minha é mais esquisita.
Eu faço verso, mãe...
Tem coisa mais dolorida?
Me deixa tentar de novo, mãe!
Quem sabe eu renasça
alguém mais apropriado...

sexta-feira, 7 de maio de 2010

sem rédeas

Escultura: Fernando Ito


Minha alma vadia
escapole por frestas e janelas
a fujona...
Rejeita regras e cancelas
Rebela-se dentro de mim
a insubordinada
A minha alma libertária
seduz a minha revelia
a impudica
Gosta de se repartir
Se esparge por todo lado
a anarquista
E é um tanto perversa
Cutuca e desconversa
E não confessa
Nunca confessa...

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Re[s]sentimento


Sucateio sentimentos
Monto e remonto anseios
Não consigo restaurar
nenhum sentimento
inteiro.




 

sábado, 1 de maio de 2010

FHHhhhh


De minha caneta
que abuso para (de)cantar
quero compor
uma melodia de silêncios
Quero uma partitura
de pausas
Breves
Semibreves
Na clave que ainda
inventarei

Da capo al fine

E vou por aí
espalhar rimas
Enquanto danço
no ritmo do bater de asas
do anjo que me sopra
o melhor
refrão.