quinta-feira, 29 de julho de 2010

Da poesia

Palavras do coração - Amanda Cass


Tenho um mundo inteiro
de palavras ao meu dispor
Um dicionário com 
400 mil vocábulos
Um idioma
Vários...

Nada disso faz poesia .

domingo, 25 de julho de 2010

Abatimento


Sem atrevimento
para experimentos
Sem coragem
para divertimentos
Ando conformada
com o desalento
e a mesmice

Será velhice?



domingo, 18 de julho de 2010

alma perdida

Broken doll - Amanda Cass


Eu me perdi da minha alma há algum tempo.

Tenho para mim, que há muito tempo eu não sou mais eu.

Minha alma fugiu em algum momento quando estava distraída e já era tarde quando percebi.

Perplexa e confusa, eu a persigo por ai. Ando em busca de pistas, pegadas. Ponho-me em perigo, exponho-me, arrisco diante de qualquer vestígio de seu paradeiro, mas nada me dá indícios de que ela ainda habita em mim.

Não me sinto mais dona de mim, nem da minha casa, nem mesmo do meu querer. O querer perdeu-se com a alma minha.

Ela saiu sutil e discretamente. Desistiu de mim por certo, de tanto eu fazer concessões. Permissível, fui consentindo que meus desejos adormecessem e meu querer anestesiasse em prol do querer de outros.

Não foi por bondade, nem caridade. Apesar de hospedar um espírito pacífico, minha permissividade vem da indolência e de acomodação, mais que da benevolência.

Tenho a exata ciência disso.

Fui deixando de fazer as coisas que me davam alegria e que hoje nem sei mais se gosto.

Já faz tempo que não contemplo o nascer do sol, nem caminho por aí sem rumo, nem pedalo minha bicicleta sob o sol. Nem sei se ainda sei andar de bicicleta.

Tempo que não tomo um porre ou um grande sorvete, não danço, não canto bem alto no chuveiro, que não brinco de ser criança, que não aproveito de verdade a experiência de estar viva

Tempo faz que não sou muito, muito feliz, mesmo por alguns instantes, que não faço uma viagem, que não beijo com paixão, que não sou amimada só um pouquinho.

Essa nostalgia tem parecença com egoísmo, eu sei. Egocentrismo. Mas tenho a precisão urgente de ser contente um pouco, pois que os tempos de agora, são tão sem entusiasmo, que me apavora desgostar de vez de ficar viva.

Preciso achar a “ânima”.

Deve ela estar escondida cá em mim, pois que uma alma não há que deixar um corpo que ainda vive. Isso é certo!

Escarafuncho na minha memória o momento que a “vi” pela última vez, mas não me vem à lembrança. Presumo que tenha ficado lá atrás com minhas bonequinhas da infância ou entre os cadernos de adolescência, ou no primeiro dia de aula, ou quem sabe no primeiro beijo de amor. Mas a gente tem mania de apurar lembranças, só para ter ilusão de que já foi feliz, mesmo sem ter sido.

Sei que é a investigação mais solitária da minha existência. Um momento especialmente nevrálgico

Não há como obter ajuda para encontrar a alma que está dentro de mim.

Quem mais poderia dela saber? Supondo que a encontre, como resgatá-la?

Qual a isca que se usa para atrair e capturar uma alma fugidia?

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Exagerada...

Queria fazer poemas
de flores e passarinhos
de sol e céu bem azulzinho
mas não tenho aptidão
Se falo de vento
Furacão
Se falo de sol
Combustão
Se falo de céu
Imensidão.
Se falo de amor
Sofreguidão
Minha poesia
é descomedida
De intensidade
mal dosada
É mesmo um
tudo ou nada
Suicida verbal
Adjunto adnominal
E embora eu tente
{em prol da delicadeza}
não consigo
fazer diferente.

domingo, 11 de julho de 2010

iconoclasta



Agora que já quebrei todas as promessa
Quero mesmo é ficar em dívida
Duvido ficar quite com qualquer santo
que me resguardaria
Já não faço barganhas
Devo não nego e não vou pagar
Não é por descaso
Não é por descuido
Não é de propósito
É mesmo por lassidão
por atonia confessa
Uma insolvente
Uma insolente
Assumo os pecados que me cometo
Minhas imprescindíveis iniquidades
Perpetro meus ócios
Reincido meus vícios
E se ainda houver alguém no céu
Que queira me blindar do castigo
Esteja comigo
Me aceite [com]paixão
Ou abdique logo de mim sem dó nem piedade
Pois que o inferno
eu já conheço.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Passatempo

imagem google

Pega-pega
Pega nada
Pega nunca
Esconde-esconde
Aonde?
Que não encontro
Passa-anel
Passatempo
Passa boi
Passa boiada
Passei a vida inteira
esperando ser achada

Passei da idade de brincar...

terça-feira, 6 de julho de 2010

Inquietudes

mynameishalo.deviantar.com


Padeci por aí
tão amplificada
de sensações
Que exprimia
em ressonância
minha angústia
Até fiquei feliz
aliviada
quando a resignação
esvaziou-me
de anseios
Mas habita-me
uma alma irriquieta
Que se entedia
com quietude
Preciso estar no encalço
de tormentas
Quando bem perto
do inferno
- contrastada -
renasço incompreendida.

domingo, 4 de julho de 2010

Busca



Ando a procura do poema derradeiro
Pretensão que ainda cogito
e espreito
Que nem carece ser perfeito
Mas que nenhum poeta
tenha escrito.
Ai de mim tão arrogante!
Apenas um vate previsível
Que tudo o que escrevo
já foi dito
Mas inda afronto
o insensato sonho
Eu admito
Mas que poema é esse
que persigo tanto
a despeito dessa cava no meu canto
Que dilacere-se de amor
Que arrebate e denuncie
Incrimine contundente
iniqüidades
Onde se esconde
o meu poema almejado?
Decerto nas penas de algum
melhor poeta
Com canetas mais alumiadas
Bardos mais apaixonados
cujas musas sejam imortais
Talvez
seja a musa que me falte
Ou quiçá
injustiças e tragédias
tenham tornado-se em mim
motes prosaicos
e triviais.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Minha poesia

Amarelo-Vermelho-Azul - Kamdinsky

Minha poesia
é patológica
exógena
desordenada
Carente de feição
Minha caneta
tem garras sem tinta
que registra rasgando
por impulso
puro instinto
E o papel
que deveria ser
inerte
é substancialmente
indomável e esquivo
Dissolve-me a audácia
Dispersa a intuição.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

quinta-feira, 24 de junho de 2010

soneto à inspiração



Dispõe-se doce a regalia refinada
Sobre a indisposta e acirrada picardia
A luz presente profetiza o momento
Da delicada mão da psicografia


E é assim que nascem todos os poemas
De prenúncios e sismológicas sofias
Em que se amparam assombrosos teoremas
Bem mais que o ávido poeta suporia


É mais que óbvio que o vate sofreria
E de verdade é assim que ele morre
Nas mãos do sôfrego desejo inclemente


Busca incessante por versos à revelia
A mão destemperada ao papel só corre
Incidindo sobre a infindável vertente

.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Mutante

Intervenção em imagem do google

Quem calou a minha voz
foi um poeta
que deixou por piedade
um livro
e uma caneta
Mas quebrou meu flautim
e meu violão
A tristeza se incumbiu
do que sobrou
A saudade carcomeu
o meu vestido
que era cor de pensamentos
cor dos olhos seus
A solidão encaneceu
os meus cabelos
cor do girassol
Se não morri
foi porque comi poemas
noite e dia
Fiz alquimia com letras
Antropófaga de meu próprio
coração
E como uma anomalia
sobrevivi
e tornei-me poeta
também.

sábado, 19 de junho de 2010

Leviandade


Busco aéreos
pretextos
para a minha rebeldia
Para as vilezas
que cometo dia-a-dia
[fatos e atos
que não se contam
nem carecem dizer]
Não existe
mérito do perdão
para o meu dissoluto
coração
de princípios ambíguos
e equivocados
Declaradamente
não anseio por clemência
Tenho um prazer mórbido
pelas culpas que carrego
Mas confesso que tenho
um medo
Um só medo
Que alguém desvende
do meu ego
o meu segredo
E me revele assim
sem nenhuma amenidade
a exata e abjeta
consistência de mim.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Refém

parto - Kimt


Façam silêncio agora
Está nascendo um poema
dentro de mim
Não consigo cuidar de nada
Nem posso falar com ninguém
Está nascendo um poema
dentro de mim
Que não poupa os meus deveres
Sem hora e sem lugar
E enquanto não se fizer
não posso dormir
não posso comer
não existe paz
Está nascendo um poema
dentro de mim
Não vou à supermercados
enquanto o poema não nasce
Nem cozinhar eu posso
Nem lavar roupas ou louças
Não quero trabalhar
Não posso ouvir outras vozes
que não seja da musa
Faça-se silêncio, pois então!
Meu poema quer nascer
Derribo afazeres
Desconto pessoas
Ignoro o isolamento
E até que nasça fico assim
Fátua e solitária
Absolutamente
refém da poesia.

sábado, 12 de junho de 2010

aprendendo


          Like a flower in the breeze - Amanda Cass

          Estou começando a achar a vida divertida.
          Que o destino não me pregue uma peça ingrata por sentir-me assim.
          É uma sensação que só a maturidade traz e isso é impagável.
          No frigir dos ovos, estou no lucro.
          Tenho decidido olhar minha existência através da janelinha dos meus olhos como se assistisse a uma aprazível comédia.
          A despeito das tragédias humanas, que não sou insensível e das minhas próprias tragédias, começo a gostar verdadeiramente de estar viva.
          Essa percepção só se tem em dois momentos da vida: quando se é muito jovem, por volta dos vinte anos e só retorna depois dos quarenta. Para alguns demora mais.
          Não troco esse sentir por nada. Nem pela juventude!
          Trocaria outras coisas, se possível fosse, como um corpo mais rijo e magro, uma pele mais viçosa, e a disposição para divertir-me mais intensamente.
          Mas teria que ter algo dispensável para dar em troca, porém não quero me desfazer de nada do que trago comigo agora, que tudo tem importância e nada de mim, nesse momento, é supérfluo.
          Sou repleta de paciência, de compaixão e de amor, e não rescindo da minha madureza, meu bem estar e da impagável sensação de liberdade. Liberdade sim!
          Liberdade de não ter precisão de ser o que esperam que eu seja, pois definitivamente sou o que me tornei: a somatória do que já fui, as experiências que tive e os sentimentos que conheci.
          Prazeres, dores, ansiedades, alegrias, saudades, angústias, expectativas, entre outros sentimentos, construíram a pessoa que sou.
          Livre dessa responsabilidade, caminho mais leve e alcancei definitivamente uma alma mais serena.
          Um “estar” que não tem quase nada a perder.
          Evidente que ainda tenho sonhos e desejos a realizar, mas a grata consciência de que dependem exclusivamente de mim e de mais ninguém, me apazigua a alma.
          Posso escolher como estar - a menos que me venha alguma dor incompatível com a delicadeza de viver assim - sem culpas.
          Vou andar por aí do jeito que meu humor diário me solicitar.
          Irão dizer talvez, que estou começando a ficar excêntrica nos modos, no jeito de ser ou de vestir, mas isso também já não me incomoda.
          Não é que é bom?
          Ando sem medo do tempo, agora que não transporto mais a sensação de urgência pelas coisas que ainda não fiz. Vem-me a constatação suave de que o que não foi feito, não era para ser, ou ainda será no seu devido tempo.
          Talvez, isso seja a tal da “felicidade” que a gente almeja durante toda a vida.
          Já não existe a preocupação de insatisfação eterna com a aparência, até porque se compreende que esta é efêmera e o tempo, inexorável.
           Acaba por ser um alívio.
          Claro está (para mim ao menos), que não vou entregar os pontos facilmente e me deixar enfear muito, enquanto for razoável. Ainda resta um pouquinho de aceitável vaidade.
          Uma senhora (de 90 anos) me disse: - Uma mulher tem que ser sempre prestimosa. Eu adorei a palavra “prestimosa”, e ela é um exemplo disso. Apesar de engelhada pelos anos, está sempre perfumada, vestida com apuro, com brincos e outros adornos, mesmo quando está adoentada.
          Além do mais, tenho que confessar que meu juízo de “beleza” modificou bastante ao longo dessa minha viagem de existir.
          Obviamente, sinto-me assim por estar saudável, por sentir-me segura de quem sou e também porque ainda não cheguei ao ponto de me preocupar excessivamente com o invariável advento da morte.
          Esse texto é só uma celebração comigo mesma por estar me sentindo bem e gostaria de compartilhar com todo mundo essa paz de agora, pois sabe-se lá como vou estar me sentindo amanhã...