terça-feira, 8 de março de 2011

geometri-cismo


Calideya by viperv6

Tenho lados
inconformados
e vértices
deformados
com arestas
obedientes
 Vários ângulos
contundentes
com mil faces
nada fáceis
Sou mil lados
mil polígonos
num quiliágono
snubificado
Em posição
inadvertidamente
invertida
Um poliedro estranho
que só de imaginar
caos tamanho
já é por si
divertido.


domingo, 6 de março de 2011

Melindres


lOve bites - Amanda Cass

Alguma coisa
em mim
desencoraja gentilezas
Deve ser coisa que faço
ou que não faço
Quem sabe o que falo
ou calo
Definitivamente
e involuntariamente
não atiço impulsos cordiais
Tenho uma aptidão
inata
de jamais ser mimada
nem nada
com delicadezas
ou poemas
 Ai que pena...

quarta-feira, 2 de março de 2011

Dentro de mim

       
       Vez ou outra, eu embarco numa viagem introspectiva onde conjecturo e permeio meus pensamentos com lembranças, sensações, devaneios e desvarios.
Acho que todo mundo faz um pouco isso. Cada qual da sua maneira.
      Sinto que tenho um patrimônio enorme bem aqui dentro (não sei se na mente ou no peito), que não consigo organizar.
Não sei como catalogar meus pensamentos, guardar em "pastas" separadas, e muitas vezes, não encontro na mente, as lembranças que pensei ter guardado. Tenho a memória desordenada.
Escrevo sobre isso muitas vezes, numa vã tentativa de me arranjar interiormente.
       Falta-me método para arquivar sentimentos em minha "área de trabalho", nos "meus documentos" ou na pasta de "minhas músicas", e nas imagens que impregnam meu cérebro. Meus poemas e os poemas de outros [que eu gosto], se fundem, se misturam, a ponto de eu não discernir quem escreveu. Espécie de dislexia literária.
     Acontece assim também com o “bem querer”, que se mistura com simpatia, empatia, paixão, afeto, atração... Tudo tão confuso.
     Gostaria de ser mais organizada e disciplinada, de conseguir desfazer-me de arquivos temporários, esvaziar a lixeira, "desfragmentar' minha mente, limpar o HD e eliminar o que já não serve e atrasa meu funcionamento.
      Queria "deletar" o que dói.
      Apagar as saudades, mas não as lembranças.
      Mas sou uma pessoa. Uma pessoa confusa, perplexa e complexa.
     Sou um equipamento emocional de qualidade duvidosa e de funcionamento incoerente. 
     Não realizo suficientemente, e meu tempo de ação é diferente do ideal, e perdida no meio disso tudo, eu ainda duvido dos meus princípios, afronto minhas próprias crenças, careço imensamente de aceitação e de afeto; e onde quer que eu esteja, estou sempre e absolutamente enfiada em meu próprio turbilhão mental sem conseguir desvencilhar-me.
      Acomete-me ininterruptamente desassossegos que não controlo e "querer" não é um verbo que conjugo com freqüência por não saber o objeto que o completaria.
     Sou a dúvida, sou a controvérsia e sou recipiente de muitos elementos, mas sou resistente e resiliente.
      Só preciso de um bom técnico, que entenda bem de hardware e software da alma.
       Alguém conhece?

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A atriz


Se não me quer
não se apoquente
que  saio eu
discretamente
sem imprecações
ou constrangimentos
Vou com meus saltos
mais altos
com meu queixo bem erguido
e meu orgulho polido
feito meu brinco de strass
Passo o batom mais vermelho
deixo-lhe um beijo
no espelho
[de longa duração]
E no decote atrevido
penduro meu coração
Sempre fui grande atriz
Ensaio uma expressão malvada
ponho uma flor no cabelo
e vou fingir que sou feliz!

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Da imprevisão dos tempos

imagem do google


Sob o céu que ameaça desabar
e arrebatar-me em enxurradas
as obscuridades caçoam da minha alma
Despejam-se sobre mim trovoadas singulares
e borrascas broncas que não fazem distinção
entre cores, credos ou medos

Desfazem e recompõem a extensão da calma esbalurtada
Mas eu ando por aí provocando
o universo e achincalhando a chuva

Eu que não sou astrofóbica nem nada
até que me apraz desabalar-me ao temporal
Aliás [desiderato] enquanto relampeja
bailo insana entre nuvens carregadas
que embora celestes nada tem de divinal

Em minha nudez coreografada de desastres e tragédias
Chovo
e atingida enquanto derramo-me
amoldo-me
Regresso poeira sideral e fragmentos
de meus próprios pensamentos
Lamaçal.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

palavras





Uma coisa leva a outra...
Inspirei-me na postagem do fouad, que se inspirou numa postagem da Me.



Não
não quero não
uma revolução
de silêncios
Não quero não
uma linha do horizonte sem poesia
e não quero
engolir palavras
junto com choro
nem amordaçar minhas mãos
que escrevem
elas são só extensão
do coração

E o meu coração fala
até sozinho...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Do afeto


Não há mais o que dizer
meu amigo
agora que a comoção
rematou
a lembrança de
um amor
grande e antigo
que o tempo
purificou
Não é que desandamos irmãos
Nem que me és indiferente
Não é que não exista paixão
É que o profano consagrou
Refinou o sentimento
inerente
[que resiste ao tempo
e desiste do contato]
É a afeição  
que nos escolta
agora e eternamente.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Desforra

imagem do google


Aperceba-se
que minha anarquia
é manobra
mais que estratégica
que consome
a perene e fugidia
vontade tua
Faço-me mel
para adoçar o veneno
que te sirvo
em colherinhas
de prata.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

dos detalhes

         
          De tanto buscar simplificar-me para alcançar a minha essência, tenho me esquecido da delicadeza dos pormenores. Do enfeitar as coisas só pela boniteza da belezura.
          De tanto enxugar meus versos, tenho em minhas mãos uma esponja encharcada de poesias que escorrem pelo chão e o escrito está meio vazio de encanto. Já não tem pé-de-mel no quintal dos meus versos e as miudezas que enchem de graça a existência, estão fazendo jogo duro com a minha imaginação. A criatividade, que antes corria solta como bala de coco embrulhada com papel cor-de-rosa em festa de menininha, anda rareando igual água no sertão.
          Eu fico então aflita, porque uma parte de mim quer produzir assim mesmo e a todo custo. Sou como criança manhosa e afoita, que não quer aguardar os “dispensáveis” confeitos, para engolir logo a guloseima. Assim, ando perdendo a chance de permitir que outros sentidos meus sejam felizes.
          O essencial é muito puro, e pureza é coisa de anjos e santos.
          Eu sou só humanamente prosaica, e meu eu precisa deleitar-se com os prazeres presenteados pelo criador através dos sentidos. Todos os cinco. Seis... Sete...
          Experimentar todos os gostos, os luxinhos, as rendas e lacinhos, os batons e perfumes, a cobertura e os confeitos, pois que se o conteúdo for adequado, a alegoria só valoriza e se não for, nada vai disfarçar a feiúra, o gosto ruim ou o fedor.
          Ou o vazio...
          Porque então, não arriscar pela alegria? Mimos para a alma é do que precisamos. Todos nós.
          Vou aprender de novo a ficar contente com as sutilezas e delicadezas e acolchoar de cortesias e arte meu despertar, porque uma coisa que o tempo tem me ensinado é que nem tudo que é aparentemente supérfluo é inservível, nem que seja apenas para deleite dos sentidos, e isso por si só já é uma incumbência muito digna.




terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Dose



Controversas questões
paradoxos
razão e coração
polêmica
disparates
sem nenhuma paciência
para embate
nem debates
Tantinho de melancolia
luxinhos
e luxúrias

Mistura tudo
Esprema bem
Ajunta um pouco
de açúcar
limão
e pimenta

Experimenta!

Sou eu!





sábado, 5 de fevereiro de 2011

solidão

Imagem do google

Quando desapareces
meu amor
eu fico tensa
Torno-me densa
inflexível e monocromática
Fico atônita
estúpida e estática
uma criança abandonada
e combalida
Menos que metade
de tão ínfima
tônica e grave de tão triste
Abarrotada de auto piedade
e do desgosto mais crônico
que existe
Saio do sério
intolerante e insuportável  
despojada de mim
alma no breu
Não há lua
não há sol
nem claridade
Na verdade não há nada
Só a mais sombria realidade
de que sem você
nem resta eu. 

Colaboração do meu amigo Grã que dialoga comigo nesse poema, e que compartilho, pois gostei muito...

Quando desapareces
meu amar
fica sem tema,
O horizonte
se apequena,
Sobreviver
vira um problema.


Quando, meu amor, vira-se e some
minha ousadia se/me consome
minha alegria, que tem seu nome,
perde o endereço, torna-se fome,
tona-me um avesso, torno-me espesso,
sobram-me as horas, meus dias somem.
volto ao que era: sou só um homem.




terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Desafio



Vou alquebrar seu orgulho
destruir um a um
os seus princípios
e enlear delírios seus
Vou confundir suas convicções
e perturbar a sua ordem
[as lógicas e as cronológicas]
e acirrar suas suspeitas
sobre tudo
Abalarei suas
certezas sacrossantas
e derrotarei suas verdades
Atravancarei o seu destino
até desmistificar sua
suposta lealdade
E faço isso com gosto
por um deleite genuíno
Pura veleidade
Uma absoluta e bendita
falta de bondade
Minha malícia
vai corroer seu discernimento
e mastigar sua vaidade
Vou lhe matar de fome

depois...
vou lhe consolar.


domingo, 30 de janeiro de 2011

Ruínas

Casario em ruínas - Foto Rossana Masiero

Não é que eu queira morrer
Só não encontro encantos em ficar viva
Imobilizada e abalada pelos tempos
e temporais

Não é que eu não tenha motivos para viver
É que não são intensos o suficientes
para me impelir
à resistir

Mas ainda barganho comigo
E escondo o tanto
de terror que sinto
Minto...

Impossibilitada de fugir
e incapaz de compartilhar
Paraliso

Sem mais chances
Sem recomeços
Sem escolhas ou transformações
a solidão devorou-me
e cuspiu-me um espectro
diluído e misantropo
da menina que fui

Sou destroços

Sem perdão para minha tanta ingratidão
só queria me reconciliar com Deus...

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

no meu quintal

 
Foto do Google

            Li um dia desses, num livro de Rubem Alves (a quem dedico um amor incondicional), que “os homens são seres que perderam a confiança dos pássaros”.
          É bem verdade isso, mas não o meu bem-te-vi!
          Sim, eu tenho um bem-te-vi, que de fato não é meu pois ele é livre, mas preocupa-me como se fosse.
          E o tal - que habita os arredores do meu quintal - é muito abusado, e se não confia em mim, decerto que não demonstra, pois é visivelmente confiante de si mesmo. Não sei exatamente onde mora, pois deve ser um bon-vivant, sem residência fixa, nem nada.
          Ele é um cara, digo, um pássaro enturmado e deve ser o falastrão da turma de passarinhos que voa pelos fios da minha rua e visitam as árvores do meu quintal. Chama todo mundo pra conversa e faz isso bem alto, com seus outros amigos bem-te-vis, sem papas naquela linguinha que só quem é passarinho entende. Chega a ser uma afronta a sua cantoria descaradamente alta.
          Além de animadão, o meu bem-te-vi é corajoso!
          Explico: Tenho uma cadela vira-latas que faz de tudo para me agradar, e por algum motivo inexplicavelmente mórbido a bichinha achou de me presentear com pássaros mortos.
          Já tentei fazê-la entender (com conversas, gritos e até ameaça de chineladas), que não precisa fazer isso para me mimar. Aliás, que ela está terminantemente proibida de matar passarinhos!
          Fato é, que ela ignora solenemente minhas explicações e intimidações. Passa os dias pulando e correndo atrás de passarinhos e vez ou outra consegue pegar um pardal ou uma andorinha desavisada, depositando o coitadinho  sem vida orgulhosamente, na soleira da minha porta.
         Sei que não é por mal, mas fico consternada. Isso lá é homenagem que se faça?
         Se já não gosto de passarinho preso, que dirá morto...
         Mas o danadinho do bem-te-vi não se impressiona e provoca minha cadela ignorando seu talento de Diana. Desce gritando (leia-se “piando”) feliz, tira uma rasante e arremete, peralta. Corre riscos despropositados.
          Talvez não compreenda o perigo que é cair na boca de um cachorro adulador e sai por aí contando suas proezas para os outro da sua laia, conversando alto como lavadeiras.
          Azucrinam-me com tanto “piatório”, desdenhando a ameaça e a minha presença.
          Mas depois me dou conta da minha sorte, por ser uma pessoa que não intimida passarinhos.
          Tom Jobim se orgulharia.
          Rubem Alves também.


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Carma

Foto poema - Rossana Masiero