sexta-feira, 1 de abril de 2011

Dos aprendizados

Aliette

As sobras de mim
você esconde
e não joga fora
Faz-me poeira
sob o tapete
Sujeira
que não se olha
Mas também
não se aferrolha
E sem escolhas
[instinto de sobrevivência]
esparjo minhas aparas
exalo e esvoaço
sou fuligem
Eu volito por ai
meus cavacos
sem escoras
Sou farpas
que não se cata
cacos que não se cola.
Encontrei meu jeito
de ser livre.

terça-feira, 29 de março de 2011

Sumário do cansaço

Tim Walker


Trancafio agora
o baú das minhas
permissivas carências
Que esta mulher
anda exausta
das concessões
preferindo
o alento do exílio
Que apesar da
impossível
solidão
não se sujeita mais
a dedicar
vãs devoções.


quinta-feira, 24 de março de 2011

Das cegueiras



Enxergas malícia
onde não há nenhuma
Vês maldade 
onde só faço o bem
Mas quando eu sou
perversa de verdade
És risivelmente cego
meu bem...







segunda-feira, 21 de março de 2011

Um modo em dois tempos

                  I
Esvaziada que eu ando
de improvisações e versos
já não me sobram
rimas nem canções
Entôo melismas
com meus fragmentos
só para impressionar
ouvidos desatentos
Bordo vogais desafinadas
embalando sílabas
no vento...


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                        II

Pois que de vésperas
eu nem mais padeço
Nem de esperas
que já não as tenho
Atravesso auroras
que já não vejo

E durmo...


Tenho o sono pesado
dos justos
e dos desencantados.


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sexta-feira, 18 de março de 2011

das eventualidades


Nem mais aforismos eu cometo
que já não me meto a me transcender
No meu lado de fora já me esparjo parva
e no meu lado de dentro contenho-me entorpecida
Pois que a vida já me anda tão incerta
que de constante só me resta definido
o memorável acaso.

terça-feira, 15 de março de 2011

da alma do poeta

The ship - Salvador Dali



A alma do poeta
não é lá flor que se cheire
Pois que vive a dourar pílula
sempre a ver navios
Chora por leite derramado
mas nunca paga o pato
nem anda na linha
o coração de galinha
Não engole sapo
pensa com o corpo
e a cabeça padece
Na chuva não se olha
nem se molha a colher
tempestades em copos d’água
que passarinho não bebe
[o fogo é para brincar]
Entorna chás de cadeira
roendo ossos duros
rema além da maré
desatando os nós
dos pingos d'água
dando a mão à palmatória
 dando com os burros n'água
dando bom dia a cavalo
e o braço à torcer
E com cordas no pescoço
prefere andar mal
do que só acompanhado 
fazendo feito andorinha
que escreve torto
de grão em grão
por certas estações 
que invernos jamais verão.

segunda-feira, 14 de março de 2011

HOMENAGEM


Hoje é o dia Nacional da Poesia!
A data foi criada em homenagem ao poeta brasileiro Antônio Frederico de Castro Alves que nasceu em 14 de março de 1847.
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Aos poetas do Brasil e do mundo, meu tributo e respeito.
Escolhi um poema de Paulo Leminski para celebrar esse dia.


Sem Budismo


Poema que é bom
acaba zero a zero.
Acaba com.
Não como eu quero.
Começa sem.
Com, digamos, certo verso,
veneno de letra,
bolero. Ou menos.
Tira daqui, bota dali,
um lugar, não caminho.
Prossegue de si.
Seguro morreu de velho,e sozinho.
Paulo Leminski
[do livro Distraídos Venceremos]

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* Para todos os que fazem do poema o seu manto de estrelas, um sentido abraço!
Aqui, como ali, como em qualquer lado,
porque poeta e o seu poema não têm fronteira ou nação
De meu amigo e poeta Leonardo B. lá de Portugal:



terça-feira, 8 de março de 2011

geometri-cismo


Calideya by viperv6

Tenho lados
inconformados
e vértices
deformados
com arestas
obedientes
 Vários ângulos
contundentes
com mil faces
nada fáceis
Sou mil lados
mil polígonos
num quiliágono
snubificado
Em posição
inadvertidamente
invertida
Um poliedro estranho
que só de imaginar
caos tamanho
já é por si
divertido.


domingo, 6 de março de 2011

Melindres


lOve bites - Amanda Cass

Alguma coisa
em mim
desencoraja gentilezas
Deve ser coisa que faço
ou que não faço
Quem sabe o que falo
ou calo
Definitivamente
e involuntariamente
não atiço impulsos cordiais
Tenho uma aptidão
inata
de jamais ser mimada
nem nada
com delicadezas
ou poemas
 Ai que pena...

quarta-feira, 2 de março de 2011

Dentro de mim

       
       Vez ou outra, eu embarco numa viagem introspectiva onde conjecturo e permeio meus pensamentos com lembranças, sensações, devaneios e desvarios.
Acho que todo mundo faz um pouco isso. Cada qual da sua maneira.
      Sinto que tenho um patrimônio enorme bem aqui dentro (não sei se na mente ou no peito), que não consigo organizar.
Não sei como catalogar meus pensamentos, guardar em "pastas" separadas, e muitas vezes, não encontro na mente, as lembranças que pensei ter guardado. Tenho a memória desordenada.
Escrevo sobre isso muitas vezes, numa vã tentativa de me arranjar interiormente.
       Falta-me método para arquivar sentimentos em minha "área de trabalho", nos "meus documentos" ou na pasta de "minhas músicas", e nas imagens que impregnam meu cérebro. Meus poemas e os poemas de outros [que eu gosto], se fundem, se misturam, a ponto de eu não discernir quem escreveu. Espécie de dislexia literária.
     Acontece assim também com o “bem querer”, que se mistura com simpatia, empatia, paixão, afeto, atração... Tudo tão confuso.
     Gostaria de ser mais organizada e disciplinada, de conseguir desfazer-me de arquivos temporários, esvaziar a lixeira, "desfragmentar' minha mente, limpar o HD e eliminar o que já não serve e atrasa meu funcionamento.
      Queria "deletar" o que dói.
      Apagar as saudades, mas não as lembranças.
      Mas sou uma pessoa. Uma pessoa confusa, perplexa e complexa.
     Sou um equipamento emocional de qualidade duvidosa e de funcionamento incoerente. 
     Não realizo suficientemente, e meu tempo de ação é diferente do ideal, e perdida no meio disso tudo, eu ainda duvido dos meus princípios, afronto minhas próprias crenças, careço imensamente de aceitação e de afeto; e onde quer que eu esteja, estou sempre e absolutamente enfiada em meu próprio turbilhão mental sem conseguir desvencilhar-me.
      Acomete-me ininterruptamente desassossegos que não controlo e "querer" não é um verbo que conjugo com freqüência por não saber o objeto que o completaria.
     Sou a dúvida, sou a controvérsia e sou recipiente de muitos elementos, mas sou resistente e resiliente.
      Só preciso de um bom técnico, que entenda bem de hardware e software da alma.
       Alguém conhece?

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A atriz


Se não me quer
não se apoquente
que  saio eu
discretamente
sem imprecações
ou constrangimentos
Vou com meus saltos
mais altos
com meu queixo bem erguido
e meu orgulho polido
feito meu brinco de strass
Passo o batom mais vermelho
deixo-lhe um beijo
no espelho
[de longa duração]
E no decote atrevido
penduro meu coração
Sempre fui grande atriz
Ensaio uma expressão malvada
ponho uma flor no cabelo
e vou fingir que sou feliz!

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Da imprevisão dos tempos

imagem do google


Sob o céu que ameaça desabar
e arrebatar-me em enxurradas
as obscuridades caçoam da minha alma
Despejam-se sobre mim trovoadas singulares
e borrascas broncas que não fazem distinção
entre cores, credos ou medos

Desfazem e recompõem a extensão da calma esbalurtada
Mas eu ando por aí provocando
o universo e achincalhando a chuva

Eu que não sou astrofóbica nem nada
até que me apraz desabalar-me ao temporal
Aliás [desiderato] enquanto relampeja
bailo insana entre nuvens carregadas
que embora celestes nada tem de divinal

Em minha nudez coreografada de desastres e tragédias
Chovo
e atingida enquanto derramo-me
amoldo-me
Regresso poeira sideral e fragmentos
de meus próprios pensamentos
Lamaçal.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

palavras





Uma coisa leva a outra...
Inspirei-me na postagem do fouad, que se inspirou numa postagem da Me.



Não
não quero não
uma revolução
de silêncios
Não quero não
uma linha do horizonte sem poesia
e não quero
engolir palavras
junto com choro
nem amordaçar minhas mãos
que escrevem
elas são só extensão
do coração

E o meu coração fala
até sozinho...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Do afeto


Não há mais o que dizer
meu amigo
agora que a comoção
rematou
a lembrança de
um amor
grande e antigo
que o tempo
purificou
Não é que desandamos irmãos
Nem que me és indiferente
Não é que não exista paixão
É que o profano consagrou
Refinou o sentimento
inerente
[que resiste ao tempo
e desiste do contato]
É a afeição  
que nos escolta
agora e eternamente.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Desforra

imagem do google


Aperceba-se
que minha anarquia
é manobra
mais que estratégica
que consome
a perene e fugidia
vontade tua
Faço-me mel
para adoçar o veneno
que te sirvo
em colherinhas
de prata.