quinta-feira, 22 de abril de 2010

A rainha de mim

imagem do google
         
          A poesia fez colméia em mim desde que eu era garotinha e através de pequenas “operárias”, reproduziu-se em minha anatomia emocional um enxame de regalias para a abelha rainha dos versos.
          Menina ainda, já brincava de versejar, rimar e fazer jogos emotivos com palavras. Era assim que tomava conta da rainha solitária e silenciosa que habitava dentro de mim: Poesia.
          A “eu menininha”, então, foi crescendo e escrevendo. Escrevia para mim e pela soberana, que reinava absoluta em meu castelo inabalável.
          Até que outra nobre aristocrata das artes, começou a cercar sutilmente meu castelo, com suas tropas sedutoras de melodia e ritmos, flertando com a solitária poesia de mim, tentando sorver seus versos... Música...
          Eu gostei dela, assim logo de cara. Minha poesia também se encantou. Mas a música, sempre foi cheia de inesperadas exigências e disciplina. Necessitava sempre de intensa e quase exclusiva dedicação e nunca fui de me dedicar muito. Nunca fui bom súdito. Apenas apaixonei-me por seus acordes e por um tempo permiti que ela namorasse seriamente com a poesia habitante de mim.
          Compus canções, cantei, ganhei festivais, gravei algumas crias desse caso de amor, ensaiei pequenos sucessos.
          Confesso que a música conseguiu espaço em mim sem grandes combates, utilizando-se do encanto das melodias, da harmonia, do ritmo e mais, valendo-se da minha vaidade, que não me orgulho.
         A poesia é um evento solitário sem grande estardalhaço. É um exercício pessoal e sagrado. Quase sem aplausos.
          Já a música, alicia e atrai não só por si, mas também pelo glamour que carrega consigo, pois que vem sempre acompanhada de celebração. Foi talvez por isso que comecei a cantar canções de outros e joguei na gaveta meus versos que amarelaram.
          A abelha rainha extinguiu-se e não se encontrou na colméia, outra larva forte o bastante para substituí-la. As operárias desertaram de mim e eu, enfeitiçada pela música, me deixei sair pelo mundo, cantando versos que não eram meus.
          De qualquer forma, não me devotei como devia à música, nem corri atrás do sucesso. Foi um namoro sem casamento, sem compromisso, que terminou sem mágoas.
          Já não sinto falta de cantar ininterruptamente, como sentia antes. Versos e canções de outros, já não me basta. Já não sinto precisão da música namorando a poesia.
          Além do que, a linguagem da música é universal. A melodia que comove aqui, comove em qualquer lugar do mundo, sem precisar de traduções.
          Compreendi que poesia e música existem independentemente uma da outra.
          Podem ser felizes, uma sem a outra, e até se encontrarem de vez em quando.  
          Podem ser amigas.
          Voltei então, atrás de mim mesma, tentando desengavetar minhas palavras. Busquei os escritos antigos, que apesar de magoados, foram delicadamente permitindo-me ensaiar versos novamente.
          As dificuldades de voltar para casa, me ensinaram que rainhas perecem, mas a essência da nobreza permanece assim como o cheiro e o sabor do mel.
          Não haverá rei posto por aqui. Resistirá a dinastia dos versos.

24 comentários:

Lara Amaral disse...

Quando vc escreve sobre o amor que carrega, eu me apaixono. Bom saber de vc, do que pensa, assim, tão abertamente, e expõe num texto tão bonito. Seus versos, sem dúvida, soarão em belas canções, nunca é tarde para desengavetá-los.

Beijo doce, abelha-rainha =)!

Stella Tavares disse...

Graças a Deus que resiste a dinastia dos versos. Ganhamos todos nós, seus leitores. Belíssimo post! Encantador!
Bjs

Eraldo Paulino disse...

Sabe, se coubesse batom em meus lábios, eu o recusaria nesse momento para beijá-la in natura. Foi como senti seu post, mais natural que o natural.

Se todos soubessem que não há poema rico sem que cada verso exerça sua força, não haveria tanta prosa.

Bjs de boca - sem batom!

Adriana Karnal disse...

Rossana,
És rainha, sim...adoro quando acasalas com a poesia.

cristinasiqueira disse...

Oi Rossana,

Bela prosa poética em que se celebra nas entrelinhas,ou seria nas estrelinhas o enlace da música com a poesia autoral de Ross.
Certa vez escrevi assim:

"Componho uma ópera usando as palavras com se fossem notas,,,e música na marcação de um tempo que desconheço"


Com amor `abelha rainha,

Cris

Mirse Maria disse...

Doce rainha Ross Mel!

Quer em música ou lindos versos, sempre brilharás.

Palavras essas que já foram revogadas! E tenho dito.

Beijos, linda!

Mirse

Miltextos disse...

Quantas releituras da pauta ainda serão feitas... tantas serão ainda reeleitas...

Miltextos disse...

Quantas releituras da pauta ainda serão feitas... tantas serão ainda reeleitas...

Batom e poesias disse...

Ai, Larinha...
As vezes acho que me exponho demais.
Ah! sou assim mesmo...kkk

bjcas, minha lindinha.

Batom e poesias disse...

Oi Stella
Saudades da sua visita sempre tão generosa.
Contente por vir.
bjs

Batom e poesias disse...

Eraldo,
assim vou acabar me apaixonando.
bjs

Batom e poesias disse...

Karnal
Que bom que apareceu!
Feliz que pense assim.
bjs

Batom e poesias disse...

Cris, minha amiga luz

"música na marcação de um tempo que desconheço" é uma boniteza de verso.

Beijos amorosos

Batom e poesias disse...

E disse bem Mirse.
Recadinho compreendido.

Te adoro
bj

Batom e poesias disse...

Jorge
"Se eu cantar não chore não, é só poesia..."
Várias leituras, mesma melodia.
bj

BAR DO BARDO disse...

Poesia e Música são maninhas que se amam por nós...

Batom e poesias disse...

Henrique,
"Ai se eu soubesse ao menos chorar, cantador só sei cantar".

Beijos bardo.

Adriana Godoy disse...

É isso, Rossana...quem foi rei nunca perde a majestade. Gostei bastante do texto, bem mandado o seu rcado. Beijo.

contagotas disse...

Rossana
Gosto tanto de sua prosa como de sua poesia. É muito bonito o que diz e a forma como o faz. A prosa é poética e a poesia prosa cantada. Elas se confundem, elas se interligam, e,talvez precisem do canto para se libertarem.
Parabéns por ser tão multifacetada.
Bjos

Batom e poesias disse...

Adriana, que bom que gostou.
Você também manda bem demais.
beijcas

Batom e poesias disse...

Michele, saiba que não é por escolha. As múltiplicidade as vezes nos faz perder a identidade.
Mas já relaxei...rss
bjs

José Viana Filho disse...

Rossan vc 'e boa em verso como em prosa!!

Bjs e boa semana!!

Batom e poesias disse...

Obrigada, José.
E antes que me esqueça, adorei seu post de São Jorge!
Salve.
bjs

Wania disse...

Rossana

Nunca é fácil voltar pra "casa" e se tornar rainha de nós mesmos... mas a gente aprende e consegue, pois quem um dia provou o mel nunca esquece o seu doce gostinho!



Prosa adocicada...
Bjão, minha doce amiga!

PS: Desculpe-me a ausência, ando atolada em trabalho.