terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
chance
Gustavo Rosa - Série Caras
Felicidade
dou uma chance de se redimir:
Você volta a morar em mim
e eu volto a existir...
.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Seppuku
Suicido
em alguns diasMato-me
com lembranças
e poemas
Morrer enfim
nem é tão ruim
Perecer às vezes
me atenua
Faz de mim
um louco
pouco original
Na verdade
nem me importo
de viver morrendo
Isso tudo é
absolutamente
normal
Para que tanto
estardalhaço
Se todo mundo morre
no final?
Rossana Masiero
sábado, 30 de janeiro de 2010
Do escrever...
imagem do google - Thoth
Cheguei a conclusão (ainda que irrelevante) que escrever é um ato repetitivo. Até mesmo o “ato-de-pensar”sobre isso” já foi arrazoado e esmiuçado.
Originalidade é quimera, miragem. É pura ilusão.
Por vezes, muitas e muitas vezes, abandonei poemas, textos, crônicas, entre outros palavrórios, ao perceber que estou repisando em pegadas já carimbadas. “Metaforizo” que viver, é caminhar por uma praia, deixando rastros na areia que já foi pisada e repisada. Então vem a onda e apaga...
Concebo sentimentos que não tem nome em nenhum idioma, careço de um dicionário para tradução de emoções e sensações, antes que insanamente eu comece a inventar palavras que não existem...
É totalmente desimportante quem sou eu, mas preciso reinar soberana, ao menos dentro de mim mesma para encontrar algum alento, e a única forma que conheço de fazer isso, é escrevendo. Nenhuma outra forma de expressão me satisfaz. Não que não as esquadrinhe e tente. Eu canto, pinto telas, desenho, por vezes componho uma ou outra canção. Cortejo enfim, as mais diversas manifestações da arte, mas, careço de luz. O alimento da minha alma é a palavra escrita.
E falando em ‘expressão’, é a nossa única redenção. Expressar-se é a única forma de viabilizar a vida, o existir aparentemente sem sentido. O que nos difere de todos os outros seres vivos.
Queria que um deus, um anjo inspirador de versos, prosas e poemas se anunciasse através de mim, para que eu conseguisse conceber o que nunca foi criado, falar o que nunca foi dito, escrever o que nunca foi escrito. Utopia...
Queria que Thoth revelasse em mim uma epifania articulada da intuição, iluminando o caminho além das limitações do pensamento, através do ofício abençoado de escrever.
Sou humana no sentido mais humilde da palavra. Sou um cérebro e um corpo, permeado de emoções, sensações, paixões, expectativas, medo, pudores, desencantos e suposições. Sou uma mulher ,que sequer precisa de ajuda. Não preciso de nada, só escrever. A mim nada me falta, a não ser tudo.
Fico encantada nas viagens pela literatura de todos os tipos e gêneros. Como é bom esse elo simbólico e tão poderoso que me funde com gente que nem conheço, escritores e personagens de todos os tempos e lugares. Me enleva e comove.
Eu amo as pessoas que escrevem. Algumas mais, por afinidade talvez. Gosto quando a gramática é impecável, mas isso não me impede de admirar a essência, mesmo quando a língua pátria é maculada por pequenos deslizes. Importa as formas inusitadas de dizer coisas prosaicas. Importa os pontos de vista diversificados, a criatividade, a beleza.
Gosto dos textos coloquiais, dos rebuscados, das prosas poéticas, dos versos com métrica, dos versos livres, versinhos miúdos, frases bem-humoradas, crônicas, contos, romances, ficção, documentários, biografias, desabafos, etc. Gosto de ler e de mergulhar em universos diversos. Plural.
Existem ‘coisas’ fantásticas escritas por aí e que certa forma são minhas ou deveriam ser, pois foram coisas que o meu coração sentiu, traduziu, identificou, mas outro expressou.
Parece-me injusto que não tenha sido eu a escrever, mas a indignação pela “pseudo-apropriação” da minha alma transforma-se em alumbramento pela “sincronicidade” do universo. Conivência. Cumplicidade.
Ainda acredito que escrever é um ato repetitivo, mas viver é uma experiência única e intransferível e vou seguir tentando descrever e escrever a minha. Com Thoth ou sem ele.
Sem escrever, não me redimo de viver.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Lagartixa
Algumas coisas em mim
já estavam afinal quebradas
e andam agrupando-se
assim
os fragmentos e lascas
E sem que eu nada faça
minha alma surpreendente
num fantástico concerto
conserta-se sozinha
recompõe-se
lentamente
E embasbacada
me percebo
inteira
novamente
Não obstante as cicatrizes
trincas e estigmas
e o rabo que deixei
para traz
Estranhamente
me reconheço
Esta também sou eu
definitivamente.
Rossana Masiero
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Intuição
Matisse
Desfiz-me das relíquias
de ansiosas vésperas
que antecedem as festas
Arranquei a colcha
de cambraia cheirosa
Cingi as brancas rendas delicadas
Rasguei bordados
Quebrei o cântaro
que regava os sonhos
e apaguei as velas
Desfiz a mesa e azedei o vinho
Avulsa e livre
da expectativa
Já era noite quando compreendi
que nunca mais
vou te ver.
.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Vai...
Vai poetinha
Vai para sua Pasárgada
Vai ser feliz
meu menino
Que eu
já não tenho mais asas
para migrar ao seu lado
Meu tempo já foi o tempo
E já não sou dona de mim
E quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
Parto em busca
da sua elegia
Você será eternamente
a senha
da minha poesia.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
fundo
Emirjo em alguns dias
Insurjo à tona
atônita
afônica
recôndita
Afloro
e logo deploro
Resvalo no vicejar
E como um anfíbio
assombrado
regresso às águas turvas
É no fundo
que eu sou
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
Esperança
Não tive um conto de Natal
Não tenho um conto de réis
Não terei um conto de carochinha
A vida é um conto do vigário
A saudade é crônica
e a paixão é poesia
No final das contas
quem diria
ainda tenho esperanças...
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
como vento
Barcos de pescadores em Saintes-Maries-de-la-Mer-1888 © Van Gogh Museum, Amsterdam
Sou meio assim
como o vento
De grandeza
vetorial
Teria que ter
sentido
(mas não faço)
E direção
(mas disperso)
Velocidade
Ventania...
Sou ar
em movimento
Não fixo
Levanto a poeira
sou o pó
Causo atrito
Fricção
Volatizo
Evaporo
Se fosse do mar
seria o sal
E embora
não me enxerguem
Sou totalmente
real.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
futuro
Foto: O Globo.
Na lente transparente
Olho de perto
a semente
Desenho de gente
Desígnio
Destino
O que será
desse menino?
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
A natureza humana
A natureza humana
desperta-me espanto
Os desejos bizarros
provocam-me desencanto
As vezes até me comovo
com a infinitude das dores
Mas ando mais assombrada
E enojada amiúde.
Confiro autenticidade
a toda forma de expressão
Censura, jamais!
Nunca mais!
Ainda assim me engulha
algumas manifestações
Tem quem se identifica
com perversidades
perfídias e perversões
Sei que pra tudo tem gosto
Aguda devassidão
Mas diante do indivíduo
humano descomposto
Meu lírico coração
se avexa
de desgosto.
Freud! Me explica?
sábado, 5 de dezembro de 2009
devoção
Foto:Olivier Taugourdeau
Devotei-me a ti
sem nenhum respeito
Impertinente
fiz-me beata
Ajoelhei aos teus pés
te constrangendo
E ofereci canções
sem advérbios
Orações e versos
censuráveis
Esquadrinhando
o mundo atrás de ti
Cavoucando o passado
Provocando o presente
Cobrando futuro
Tantas vezes
inconvenientemente
Que mais incomodei
que agradava
Que mais afastei
que aproximava
O que eu não via
é tão simples
agora eu sei
Você apenas
não me queria
Nem o apego
que te dediquei.
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