sábado, 2 de abril de 2011

Preconceito e hipocrisia

Desenho de Maithe Masiero com intervenção digital

Eu precisava de um guarda-chuva para esses tempos chuvosos, cujas “águas de março” fecham muitas coisas, além do verão.
Ele estava lá, na frente da loja, aberto, lindo e colorido como um arco íris circular.
Como de cinza já bastam os dias de chuva, não tive dúvidas, comprei-o imediatamente, sentindo-me feliz como uma criança com seu brinquedo novo.
Nunca torci tanto para chover, e, na primeira garoa lá fui eu toda prosa para o trabalho, com meu poderoso protetor policromado.
Já no caminho percebi alguns olhares curiosos que ignorei, e, chegando ao trabalho, depois de devidamente “zoada” por colegas e estagiários, fui alertada que estava portando um símbolo gay.
Símbolo gay?
Que bobagem!
Óbvio que conheço a bandeira do arco-íris criada pelo artista Gilbert Baker (descobri isso pela internet). A bandeira com as cores do arco-íris foi usada na parada do orgulho gay de San Francisco e desde então foi adotada como um emblema da união dos gays do mundo todo.
Mas hellou!?!
Não sou porta estandarte de nada. De qualquer forma, vale ressaltar que o intuito dos vários matizes é exatamente chamar a atenção para a diversidade e a tolerância. Então, dá licença de eu usar meu guarda-chuva lindo e colorido, sem precisar ser rotulada?  Gente chata!
Não me incomoda nem um pouco pensarem que sou gay, visto que não acho nada de mais nisso. Aliás, pouco me interessa a orientação sexual das pessoas nesse “mundão aberto e sem porteira”, e acho sinceramente, que cada um é dono da sua vida.
Interessam-me pessoas e seu conteúdo.
Dito isso, informo que todo o escrito acima, foi um preâmbulo, pois meu amigo Eraldo Rodrigues me propôs escrevermos juntos sobre homossexuais e suas dificuldades.
Ele, no blog dele (eraldopaulino.blogspot.com) e eu, no meu.
Porque nós?  
Não faço a menor idéia já que ambos somos heterossexuais, até onde sei.
Penso que é porque o Eraldo é um idealista, um militante ferrenho dos direitos humanos em suas infinitas nuances e tenho a impressão de que ele observou que partilhamos do mesmo respeito ao próximo, independente de raça, credo, cor, orientação sexual, nível social, econômico, etc., etc.
Abusada que sou, topei e arrisco-me então nessa brincadeira séria, porque também tenho grandes amigos gays e, apesar de não ser uma perita nesse universo, eu conheço e amo os meus amigos, portanto quero vê-los felizes e realizados.
Isso significa apoiar irrestritamente todos os “movimentos” que tenham esse poder, incluindo o casamento e a adoção.
Existe muita polêmica sobre este assunto especialmente (adoção), pois algumas correntes de pensamentos (tacanhos e conservadores), alegam que uma criança não deve ser adotada por casais gays, por conta da “dificuldade do reconhecimento perante a sociedade, da existência de um núcleo familiar homoafetivo”.
Ai ai! Quanta hipocrisia!
O outro motivo alegado, seria a consequência gerada aos adotados, já que ficam sem referências do modelo “aceitável” de família.
Heim?
Do alto da minha ignorância, gostaria de saber que “referências” são essas?
Que modelo é esse, especialmente nesse país, onde a família é uma instituição falida, onde crianças são abandonadas, jogadas fora ou criadas na miséria por mães adolescentes e/ou sozinhas, e em último caso, por instituições incompetentes?  .
Isso é “aceitável”?
            Quem poderá ter mais dedicação a uma criança que duas pessoas que se amam independentemente do sexo que tenham?
Não se pode ignorar o direito dos homossexuais à adoção e nem os benefícios trazidos à sociedade, em decorrência da formação de um novo lar aos adotados, isso é fato.
Lar é lar e o conceito de família tem quer ir além do gênero das pessoas que a compõe.
Digam-me ainda: Que criança não gostaria de viver num lar abastado de afeto e num mundo mais alegre e colorido?

24 comentários:

eraldo disse...

Ah, foi uma pena mesmo não ter conseguido conversar direito contigo antes de postar. A imagem que você utilizou é show! Maithe é sua filha?

O texto é excelente, e como eu costumo debater com alguns amigos meus que são militantes: A luta do militante dá resultado quando ela não é mais só dos militantes. Quando só militantes esbravejam, conseguem rotular de baderna, mas quando essa luta tem aceitação popular, então é o primeiro e mais decisivo passo pra vitória.

Muito bom!

Bjs orgulhosos no batom!

Berzé disse...

Adoção sim, preconceitos não!Sou até, a favor de uma espécie de vale-adoção.Explico-me:Morei um tempo num interior gostoso e acho que se tivesse uma política de adoção no interior,poderíamos dar um meio mais propício, menos viciado, pra muito futuro maior abandonado q fazem mais futuros maiores abandonados e por aí vai.
Empolguei! Para por aqui.Falo na condição de um ser humano que já adotou um menino muito legal.
Berzé

Lara Amaral disse...

Ótimo texto, minha amiga. O que vale é a disposição que as pessoas têm para amar, para se dedicar a alguém.

E sobre rótulos, sempre detestei, meu poema "8 ou 80" fala bem disso.

Tenho muito orgulho de vc, Ross. Escreveu tão bem, de forma simples, sem ser grosseira ou radical. Admiro pessoas sensatas assim.

Beijo.

Michele P. disse...

Rossana

Falou bonito e falou verdades.
Assino embaixo.


Bjs!

Raíz disse...

BRAVO!

Abaixo MESMO a hipocrisia e o preconceito.

Quanto a adoção, é isso mesmo. As mães estão muito ocupadas trabalhando e implantando silicone.

Só um lar, com amor e tempo para dar, salva esse mundo!

Parabéns, Eraldo e minha linda amiga Ross!

Beijos

Mirze

byTONHO disse...



"Adoção é coisa DOCE e grandiosa!"

Parabéns Rossana e Eraldo!

ho.MOFO.bia ← contém!

:)

Phoenix disse...

Bem, rossana, que texto! As pessoas têm que aprender a ser mais permissivas...desde que estejam felizes, que importa que amem alguém do mesmo sexo?
e guarda chuva com arco-íris?Quem me dera ter um! :P

beijinho*

Suzana Martins disse...

O importante é o amor que respinga em nós. Precisamos unica e exclusivamente de amor...

Beijos

Batom e poesias disse...

Feliz que tenha gostado, Eraldo.
O desenho é da minha filha, sim.

Esse "espinho" da humanidade (o preconceito), tem que acabar.

Bjs

Batom e poesias disse...

Ô Berzé, fico feliz de ter sua opinião mais que abalizada sobre o assunto.
Muito grata.

bjs

Batom e poesias disse...

Larinha, nossa sintonia fina sempre nos aproxima.
Não esperava outra coisa de você, minha amadica.

bjs

Batom e poesias disse...

Michele,
Falou pouco, mas falou bem.

Bjs, querida.

Batom e poesias disse...

MIrze, uma hora vamos nos dar conta que somos todos do mesmo bando, e cuidaremos melhor uns dos outros.

Bjs, amiga.

Batom e poesias disse...

Tonh0, meu amigo
Ao seu modo, você sempre diz as verdades.

Grato por vir, querido.
bjs

Batom e poesias disse...

Joana, tem toda razão, minha querida.
Temos que nos permitir a tolerância.
Bjs

Batom e poesias disse...

Suzana,
"Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o amor".
(Paulo de Tarso)

Bjs

Mário Lopes disse...

Acompanho-te totalmente no que expressaste, Rossana.
Belo texto e lindo o desenho de Maria Thereza.

Beijos para ambas.

Batom e poesias disse...

Agradeço de coração o carinho, Mário.
Ambas agradecemos.

bjs

Wania disse...

Rossana querida


Desde quando um lar tradicionalmente composto é atestado de habilitação para educar uma criança? O que garante a integridade emocional de um pequenino: é gênero do par que compõe o lar ou são os valores (aqui entram todos) que cada um dos formadores tem e podem lançar mão para educá-los?

Assuntos onde entram em jogo a sexualidade ainda são envoltos de uma névoa grossa e ainda não bem clareada pela maioria das pessoas. O preconceito ainda é a maior barreira nisso tudo. As pessoas julgam quando na realiade este não é, nem de longe, o mérito da questão.

Trabalho e vivo diariamente com isso, crianças com HIV/AIDS, doença que tb tem um estigma muito forte e, muitas vezes, relaciondada a este tema abordado. Discriminações de toda ordem e das maneiras mais cruéis que possam existir aumentam ainda mais a vulnerabilidade dos que sofrem na pele este drama. É muito triste de ver e mais frustante ainda é a impotência que assumimos frente a isso tudo. As barreiras são enormes.

Infelizmente, as coisas terão que mudar muito ainda para termos um mundo mais digno, justo e igual... pra TODOS, mas é assim que se começa: levantando as questão, debatendo, esclarecendo, mostrando exemplos, conscientizando, valorizando, enfim trazendo pra roda isso tudo para nós relembrar que a vida é muito maior que isso e que o amor ainda é a grande arma pra se conquistar qualquer PAZ, de dentro e de fora!


Amiga, me espraiei demais, me desculpe, mas eu ainda sonho com um mundo melhor para nós...

Bj imeeenso e parabéns pela iniciativa de vocês dois.

Wania disse...

...opssss, errei

...trazendo para roda isso tudo para NOS relembrar...


Bjs, Wania

Batom e poesias disse...

Wania, minha amiga amada,
Compartilho do seu sonho e não poderia receber comentário mai bonito e sensato.

Receba meu amor e admiração.
bj

Wellington Bernardino Parreiras disse...

Rossana Masiero, bom dia!!!



Acabei de conhecer seu blog por meio de nossa adorável Larinha e o achei muito bom e sutil, parabéns!


Em um futuro pretendo voltar na discussão “Pre-conceito e hipocresia”, mesmo acreditando que não serei visto com bons olhos, pois irei trazer reflexões distintas sobre o homossexualismo e as concepções incongruentes sobre a sociedade e a família ideal de nossa cultura.


Não irei fazer um paralelo com outros Países, pelo fato de não conceber que devemos ter como base comparativa estados, sentidos e significados díspares de algo que seja natural à realidade a qual faço parte, sobretudo pelos níveis de complexidades da subjetivação humana, quanto mais dada à diversidade cultural e sócio-histórica do povo Brasileiro, mas fique tranqüila quanto ao caráter respeito, prezo o respeito mútuo acima de tudo.


Irei participar de uma rodada de discussão sobre homossexualismo

Propomos uma abordagem sobre as relações interpessoais, suas significações, simbolismo e valores relacionados ao gênero à orientação sexual e à homofobia na educação.


Facilitador: Paulo Nogueira

Doutor em educação e professor da faculdade de educação da UFMG


Dia: 09 de abril de 2011

Horário: 14:00 às 16:30hs.


Local: Rua da Bahia,573 sala 703 B. Centro – Belo Horizonte/MG.


Inscrições gratuitas pelo telefone (31)3267-7871- e-mail : grupoalem98@yahoo.com.br


Abraços fraternos,

Wellington

Batom e poesias disse...

Caro Wellington,
Você é muito bem vindo!

Jamais veria com maus olhos uma conversa respeitosa, a despeito de opiniões divergentes.
Eu prezo pelo respeito e, sobretudo pela tolerância, e não especifico apenas o homossexualismo e sim todas as escolhas pessoais que não prejudicam ao próximo.
Há muito para ser dito, mas posso resumir minha posição particular sobre isso:
Não gosto de apologia nem de extremos, não gosto de protecionismo nem de oportunismo.
A humanidade é múltipla e temos lugar para todas as formas de expressão, desde que tenhamos Amor. Gosto de gente e de arte.

Desejo sucesso no evento que irá participar, e que infelizmente por morar longe não poderei estar presente, mas desejo que seja um momento de iluminação.

Bjs

Wellington Bernardino Parreiras disse...

Ei Rossana, gracias pelo afeto e compreensão!!!!

Temos em comum nossas concepções de mundo quanto a ""Não gosto de apologia nem de extremos, não gosto de protecionismo nem de oportunismo."" e que se faz necessário reler tantos desencontros humanos para que todos seja dignos de se sentirem também parte da existência plena.

Enviei aqui as informações para que seus amigos e você tenham conhecimentos de que em BH se discute muito a temática e que temos alcançados resultados relevantes, entretanto a amadurecer mais e mais, afinal é isso que nos torna tão humanos, reiventar o já iventado, mas sem eliminar toda base de princípio humano e sem excluir as possibilidades futuras, todavia que ambas esteja dentro da eticidade para reconstruirmos outras morais.

Obrigado por ter visitado meu blog ou meus blos!!!

Abraços fraternos,
Wellington