terça-feira, 17 de novembro de 2009

Não é interessante?



A noite está agradável, meu amor. Morna como uma noite de início do verão.

Não posso dizer que noites assim me lembra você, porque quase nada me faz lembrar você ou nós.

"Nós" foi um delírio meu, um desvario, um sonho. Nunca existimos realmente.

Passamos juntos alguma noite de verão? Não me lembro..
.
A noite está quente hoje, meu amor, mas uma brisa suave me traz o perfume das camélias que moram no quintal vizinho e camélias também não me lembram você. Aliás, flores não me traz nenhuma lembrança sua.

No céu, relâmpagos anunciam uma tempestade  e tempestades também não me lembra você.

Tenho certeza que nunca compartilhamos uma tempestade, não é mesmo, meu amor?

Não consigo vislumbrar a lua atrás das nuvens pesadas. Nem mesmo o reflexo do luar. Mas, surpreendentemente, a lua me lembra você... Você sabe...

Mas hoje não tem luar.

Eu penso em coisas quando me lembro de você e não o contrário como seria natural.

Sabe mesmo o que me lembra você, meu amor?

Vidraças...

Quando eu penso em seus olhos claros, minha mente logo imagina vidraças, janelas de um ônibus partindo de um terminal do passado para nunca mais voltar.

Penso em como teria sido se não tivesse partido...

Quase nada me lembra você, meu amor, no entanto, eu não te esqueço um só instante...

Não é interessante?

24 comentários:

Mai disse...

É amiga, há presenças que não 'nus' parecem naturais - são infinitamente sobrenaturais, surreais mas o que é mais vexatório, é que são corporais e interessantes como o fantasma de um violinista cego.

E sim, é muito interessante o teu texto.
Beijos, Rossana.

Batom e poesias disse...

"Vexatório" é a palavra exata, minha querida Mai.

Adoro seus comentários sempre argutos.

beijos na alma.

j. monge disse...

Lindo poema de engolir o coração.
Obrigado pelo teu "lado esquerdo" poeta!
Beijo!

Batom e poesias disse...

O lado esquerdo é onde ele pulsa, João.
Saiba que a honra é toda minha.
Eu que agradeço.

arinho, poeta.
e bjs

Simplesmente Outono disse...

O todo e o tudo!
Mesmo quando não resta absolutamente nada de bom para ser lembrado no que foi supostamente vivido em sua plenitude, esta briga do esquecer completamente não cessa nunca.
É um não querer lembrar sabendo quase que aos gritos que jamais será esquecido.
Incômodo nato e cansativo tanto quanto esta peleja.
Quanto ao título: certamente uma totalidade que nunca existiu.
Adorei o seu canto e voltarei.
Minhas folhas secas pra ti.

Batom e poesias disse...

E eu adorei o que escreveu, "Simplesmente Outono".

Tentar esqucer é mesmo uma peleja cansativa e dolorosa e incessante, e completamente inútil...

Recolherei com carinho as tuas folhas secas.

Grata por vir e comentar.
bjs

Mirse Maria disse...

Nossa Rossana!

Eu escreveria esse texto, claro que sem a sua maestria, mas o final seria outro.

O meu final seria: já o esqueci nesse mesmo instante!

Sofrer por amor deve ser terrível!

Desse mal, não viverei!

Parabéns, poeta!

Beijos

Mirse

Batom e poesias disse...

Hahaha

Mirse, você é ótima!
Mas não se esqueça, vale para mim e vale para você:

"O poeta é um fingidor
finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente."

Te adoro, amiga!
bjs

Estela disse...

Um poema de amor às avessas.

Como diz a canção: "Qualquer maneira de amar vale a pena, qualquer maneira de amor valerá".
Bjs.

cristinasiqueira disse...

Oi Rossana,

Talvez na transparencia da vidraça você possa escrever com seus dedos de encanto este amor que não se esquece.Transparente como o vidro da janela do õnibus que parte.
E o vidro quebrado que corta arde.

com carinho,

Cris

Batom e poesias disse...

Que lembrança boa, Estela: A canção "Paula e Bebeto" é uma delícia.

Grata por vir.
bj

Batom e poesias disse...

Cris, que bonita imagem você criou:

" Transparente como o vidro da janela do ônibus que parte.
E o vidro quebrado que corta arde"

Gostei muito, querida.
bjs

Mário Lopes disse...

Do que tu és capaz, Rossana! Que música, que perfume se liberta dessas palavras vindas do teu coração de mel! As tuas palavras são simples barquinhos carregados de ternura que entornam no poema, um rio que corre manso e se demora no pensamento de todos nós, libertando o que de mais precioso guardamos na alma: o amor que nunca foi esquecido.
Deixaste-me o coração aberto à luz do dia!
Beijo encantado.

Lara Amaral disse...

As vidraças passam e refletem nossos próprios olhos...

Interessante o que sentimos ilogicamente. Mais interessante é seu poema, que explicita o sentimento mais puro.

Beijos, querida!

Adriana Godoy disse...

sem isso tudo, não seria amor...bonito. bj

Batom e poesias disse...

Mário
Acho que o teu coração já é encantado por natureza.
Meu singelo poema está muito aquém da beleza que teus olhos leêm.
Mas me alegra que leia assim.

Grata meu querido.
bjs

Batom e poesias disse...

Obrigado Larinha.
Beijinhos no coração!

Batom e poesias disse...

Também acho, Adriana.
Grata por vir, minha querida.
bjs

Adri disse...

Nossa !!!!! adorei, senti do fundo da alma.....bjs

Batom e poesias disse...

Adri,você sabe...
Você é minha irmãzinha.
bjs

Marcia Carneiro disse...

Nossa... esse poema silencia a gente... Tua alma linda recolhe tudo, aprende... Parabéns Rossana. Minha poesia namora com a tua.

Batom e poesias disse...

Fui visitar teu cantinho, Marcia e realmente nossas poesias viajam pelos mesmos caminhos.
Gostei muito.
Obrigada por vir.
bjs

Bruna Maéli disse...

Lindo. Estranhamente eu me identifico muito com esse texto. Nem sempre fazem sentido as coisas que vêm do coração. Às vezes nos prendemos ao passado de forma estranha, não é saldade, não é mais amor, são apenas doces e insistentes lembranças...

Batom e poesias disse...

É assim mesmo, Bruna.
Insistentes lembranças...
Obrigada por vir e comentar.
bjs