quinta-feira, 14 de maio de 2009

Um dia

Um dia quem sabe, descobrirão tudo sobre mim, e se complacente forem, me verão com bons olhos. Ou talvez com zombaria, me achem uma casa de abelha vazia ou borboleta imprudente, mas cheia, cheia de amor. Cheia. Um cruzamento de querubim decaído e demônio que se redime. Arrependidos. Ambos. Um querendo ser o outro. Verão o pouco que errei e o tanto de aflição e entenderão que eu não pequei. Eu apenas sigo tonta, uma menina e um parquinho, persigo redemoinhos, ciganos e borboletas. Vôo atrás de ties sangue e os espanto de seus ninhos só para vê-los voar. Persigo o amor em mim mesmo. Cometo pequenas iniqüidades, pecadilhos arrebatados, faço versalhadas em vão. Diluo-me todo dia atrás de encantos de rimas e paixão. Derreto feito sorvete num deserto tropical a qualquer verso mais forte. Emoção. A qualquer rima me liquefaço. Desmancho-me mesmo, confesso. Sou mole, dura, clara e escura, tudo junto e ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo. Sou duas, sou dez, uma só, que ama a fumaça e se dissipa na direção que o vento sopra. Sou eu. Consigo ser de tudo um pouco e sendo, eu sigo levando um cego, um surdo e um louco dentro do meu umbigo. E entre o nariz e o tal, habita o meu coração que por força das circunstâncias escolheu essa localização, a distância precisa entre o volúpia e a razão. Um dia descobrirão que eu quis ser só poesia, que eu quis nascer poema, quis um poetinha e quis muito ser feliz. Quis. Ser feliz! Isso era tudo o que eu queria e um dia, lá um dia, num futuro ainda escuro, entenderão que meus ardis eram puros, muito puros. Um dia. A maldade era bobagem, artifícios inocentes, vadiagem, pois eu fui só e apenas amor. Compreenderão enfim que de mim têm pouco a dizer, de bom, de mal, de verdade, quase nada. Nada a temer. Quase nada a dizer. Fui somente a pretensão de querer quem não podia com a mania de aparentar a feição de quem não sou.

8 comentários:

glória disse...

Ai Rossana como me reconheço nos teus escritos! Tuas palavras são tâo claras, testemunham os traços de quem sabe do valor de si através dos ritos da memória:

Isso era tudo o que eu queria e um dia, lá um dia, num futuro ainda escuro, entenderão que meus ardis eram puros, muito puros. Um dia.

Esses ardis sem nada a temer a não ser essa palavra que despenca por sua verdade, por sua densidade.

Ler você me ilumina. (estava e estarei de vez em quando ausente por agora ter assumido aqui em Fortaleza a condução da Secretaria de Direitos Humanos.Imagina ne?

bjs

cristinasiqueira disse...

Bonita esta borboleta imprudente.
E depois,"o meu coração que por força das circunstâncias escolheu essa localização, a distância precisa entre o volúpia e a razão."

Lindo! lindo!

Com carinho,

Cris

Mirse disse...

Lindo, Rossana!

Quanta delicadeza de sentimentos! Quantos desejos que todos tem e ninguém diz

Parabéns, amiga

Beijos

Mirse

Leo Mandoki, Jr. disse...

...gosto sempre de gente que escreve com o coração preso no pulso....parece ser o seu caso...gostei da sua foto no perfil.
um beijo

j. monge disse...

na tua escrita me reciclo.
adorei o que tu não és para ainda gostar mais daquilo que és.

beijo, poeta!

Flavio Ferrari disse...

Um beijo em teus lábios de poesia
Em teu coração de sorvete derretido
No teu umbigo louco que não conhecia
E aí, espero ter te compreendido

O Profeta disse...

Um Violoncelo reage ao toque
Vibram as cordas, solta-se a melodia
Das mãos escultoras das notas
Saem afagos de sonora magia

Uma alma reage aos acordes
Um coração bate ao compasso
Uma voz entoa dolentemente
Um corpo deseja o abraço


Boa semana



Doce beijo

XXI POETAS DE HOJE EM DIA(NTE) disse...

Muito bem escrito e colocado.

Rossana, se puderes aparecer na capital no próximo final de semana, nós a convidamos a coquetel de lançamento da coletânea XXI POETAS DE HOJE EM DIA(NTE), no Bar do Batata, às 19h30.

Abraço!