sexta-feira, 6 de novembro de 2009

fazendo as contas...



Tenho levado sustos na vida
Calculei mal as expectativas
E a muito custo me refaço
Contabilizei demais os prejuízos
e tenho esquivado a viver o bônus
Contando agora
o bom tempo que me resta
Eu deveria é fazer festa
todo dia
Para celebrar momentos
como o agora
Em que me encontro
viva e respirando
Tenho conforto material
Tenho certa sanidade mental
e algum lenitivo emocional
Tenho saúde e tenho pão
Me falta apenas
uma coisinha
Que impede
um festejo retumbante
Conseguir viver
sem paixão...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Reclusão



Ando sentindo tristeza
todo santo dia
Uma cava no peito
um vazio
Falta de não sei quê
Que cismei até de estar
chegando ao fim
Por falta de espaço
em caber tanta
tristeza em mim
Anda essa
a transbordar
pelas minhas gavetas
abertas
No amassado dos lençóis
Nos meus olhos que vazam
e na fuga sintomática do sol
Ando gostando
de ficar no escuro
Gostando da reclusão
e da clausura
Com medo de pessoas
e de venturas
Evitando qualquer
comoção
Privando-me
dos meus sentidos
Preferindo lassidão
e tédio
Assim após o exposto
Desabo nos travesseiros
Aguardo ainda insone
o efeito do remédio...
- I want to be alone!

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

" ... "



Caminho sem veemência
e não limpo mais meus sapatos
Eu carrego inconsequente
cavacos e dejetos
Nem varanda
nem terraço
Sou escada ou rampa
que desce para o nada
Sem corrimãos
guarda-corpos
ou segurança
Refém dos meus
próprios alvitres
já não sonhos os sonhos
que não se consumaram
Nem possuo mais
os anseios impuros
que restaram impunes
Desabo atravessando o ar
como um disparo
Trago nas mãos o revólver
que me aponto todo dia
Que se danem as cordas
que enforcam
As facas que cortam
e os pecados...
Que explodam num tiro
todos os meus sentidos
Porque sentido
já não faço
E para eu desistir
só falta escolher um bom vestido
O resto é mera formalidade...

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

filhinha



foto paulolima

Não importa o quanto
pense que cresceu
minha filhinha
Não me deixe perceber
Não importa o quanto
se ache independente
menininha
Mente...
Mente pra mim
Diz que precisa de colo
Seja paciente
Porque necessito assim
Ainda banhar-te devagarzinho
fazer espumas de (a)mar
que te escorram pelos dedinhos
Depois lavar-te os cabelos
passar xampu aos pouquinhos
Vendo a brincadeira te encantar
E acarinhar-te com gotas d'água
como se fosse o bebezinho
que você costumava ser
Brinca comigo anjinho
Para que eu possa deter
o tempo só um pouquinho
E possa reter-te comigo
ao menos na lembrança
Ate que eu consiga enfim
deixar você crescer...

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

composição


Chet Baker

Você me toca
como você toca
Notas longas
lentamente
Semibreves e harmônicos beijos
delicadamente
E de repente inesperado
investe intensamente
improvisa em mim
imprevisíveis solos
audíveis somente
pelos sentidos
Compõe nas pautas
que me risca as costas
com as digitais
Melodia sensual
tátil
Dedilhando arrepios
Como se em mim
houvesse um pistão
em cada ponto
que pressiona
Sopra-me essência
e desejo
E seu ritmo perpassa
transpassa e ultrapassa
meus sentidos
Acelera e sobe o tom
Semínimos toques
Fortíssimo
Rápidos
Agudos
Até que eu me faça bailarina
e me dissolva
em gotas
musicais...

sábado, 10 de outubro de 2009

assim




Por vezes me surpreendo com as conclusões equivocadas, ou não, sobre meu íntimo confuso.
Já me disseram que sou o tipo de gente feita para ser baldia, mas eu sei que meu coração é um latifúndio infinito loteado e totalmente ocupado por milhões de outros corações.
Cabe em mim uma infinitude de almas que amo, que desejo e quero bem.
Cabe em mim, uma gama de cores maior que a caixa de lápis que guardei a vida inteira, cores de todos os tons, vários tipos de amores, com muitos nomes e qualificações.

Talvez tenham razão quando dizem que sou fugidia.
Sou controversa, mas (infelizmente) não sou contraventora.
Reflito, reajo, remendo, mas não me emendo
Eu dou a corda, mas não me ato.
Evado-me...
É que meu coração é passarinho rápido.
É colibri.
Vôo e vou de flor em flor, encantada e não paro muito em lugar nenhum.
Até sou de muita conversa, mas de pouco tempo com os mesmos assuntos.
Sou um pouco como o vento.
Surjo revôo e passo.
Tenho a mente ventilada, multifacetada, mas estilhaçada.
Tenho a alma intempestiva, mas introvertida.
Sei que sou divertida, mas nem todo mundo acha.
Platéia sem talento...
Às vezes - confesso - me esquivo, mas ainda assim vou seguindo.
Escapo feito fumaça que deixa o cheiro, mas passa.
Assim.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Das ressalvas




Não vou tecer um público poema
E impudica expor a minha vida
Quero fazer segredos do meu tema
E não deixar minha alma confrangida


Não têm que saber que sou aquela
Basta que sintam minha eufemia
Pois os olhos que me olham da janela
Detectam a minha nostalgia


Se me escancaro sei que rarefaço
Não quero um manifesto da poesia
Só roubo do Lácio a última flor


Não para expor meus versos escassos
Segredos da alma e sua atonia
Mas só tornar pública a minha dor.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

MPB




Benditos os convidados
para a ceia de talentos!
Banquete de metáforas.
Saudade sem alento...
“Vini” velho “camará”...
Por onde andará?
Antonio Brasileiro...
Jobim dos “Passarim”...
Voa livre, outrossim!
Caro ministro!
Ganhaste um
presente sinistro
para um poeta tão hodierno
Aliás, mais que moderno!
Gil das conclusões inusitadas,
inesperadas
poesia ora pura, ora dura.
Legítima melodia
Buarque, “mulher macho”!
Impressionante sensibilidade
O melhor de mim feito em poema
O melhor da viagem feita em canção.
Veloso, como foi doce
despojamento espantoso...
Precioso tempo
sem lenço nem documento...
Sem “discos de ouro”...
Que tesouro!
Lembro Elis...
Porque tão infeliz?
se tinha o de melhor pra cantar...
Ivan, sempre inventivo e discreto
Gonzaguinha, fecundo, direto
Djavan, um glossário
Um dicionário!
Meus poetas musicais
Meninos que não encanecem
jamais para meus ouvidos
Apenas duvido que haja
banquete desse requinte
Em algum tempo seguinte.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

abatimento


Indigna já não levito
Em lástimas estréio
meu alforje de farrapos
Eu ardo como ardem
as chagas tatuadas
Latejo e inflamo
e lambo as minhas
feridas
Perpetuo a mágoa
cultivando cicatrizes
Desprovida de alma
o corpo não se acalma
E suspensa em dores
Dissipo solitária
Um singelo arcanjo
exausto e abatido...

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

cuidado...



Nunca é tarde pra se perder na vida
Até hoje eu tento andar nos trilhos
pois que qualquer distração eu descarrilo
e me acabo num vício ou num exílio.

Nunca é cedo pra se perder o bonde
Não existe um só ponto sem perigo
pois que qualquer desvio, um desatino
virá nas noites más um bom castigo

O destino é traiçoeiro e ardiloso
é uma rede tecida com finos fios
romper-se a trama é fácil e perigoso
mergulho sem volta em denso rio

Cuida bem, pondera, pensa muito
porque num instante tudo está perdido
É sutil o portal entre o que não presta
e a armadilha sedutora dos sentidos

A munição é pesada, a guerra, insana
Eu mesma me vigio todo dia
e todas as noites eu me policio
pois que senão me entrego aluada
às tentações devassas e mundanas
e me abandono às perdições desavisada
e inexoravelmente desvario....
.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Chorinho



Vai-se nume
sonho e encanto
Vem silêncio
e afasia
Decanto
sem canto
e sem poesia
Me faço água salgada
Que bóia
dos olhos da alma
e entorna...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

FALTA FALTA


Flor do cerrado - imagem gentilmente cedida por Jorge Stark Filho


Ando sentindo falta da falta tua
Da falta que me fazias
Da tua falta que me inspirava
nas jornadas da elegia
Mas depois de desesperar
da tanta falta que havia
parece que fiquei vazia
Despoemei as entranhas
Já não mais me acometia
o antigo e estóico lirismo
E a linguagem se atrofia
Estando então eu assim
tão oca e despreenchida
da tua falta em mim
desencantei da poesia.
.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Paranóia


Esse cartum é uma lembrança inestimável da minha adolescência

Em minha psicose crônica
e sintomática
Me sinto perseguida por poesia
Defasada da realidade
Sou dramática
Incoerente
cheia de mania
Tenho doce personalidade
Mas carrego em mim
um pouco do demente
De convicções suspeitas
e anormalidades
Com defeitos pessoais
e socialmente
Melindro-me
sensível e desconfiada
Meu isolamento
é bem perceptível
E estão em todos
os meus sinais
E nesse meu
comportamento
discutível
Multicolorido e dicróico
Não passo de um cartum
uma chacota
Sou como Ubaldo
- o paranóico - .

.
.

domingo, 13 de setembro de 2009

Detalhezinho sutil...

Como saber que não é anjo

se o demônio é gentil?

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Nos bailes da vida...

Milton Nascimento não falava a sério quando compôs "Nos bailes da vida", especificamente no verso que fala que "para cantar nada era longe"...

Já viajei em boléia de caminhão quando o ônibus de uma Banda que cantava quebrou, passando por poucas e boas, nessa vida de cantar. Mas no último fim de semana eu ultrapassei meu recorde de acontecimentos curiosos. Fui cantar em Roraima.

Alguém tem noção? É longe, muito longe! Não tanto se você está em Manaus, mas se você está em São Paulo, é sim! Congonhas-Brasília, troca de avião para Manaus e então para Boa Vista.

Por pura curiosidade, antes de ir, fiz uma pesquisa criteriosa para saber quem conhecia Roraima. Ninguém! Ninguém das minhas relações, ninguém que eu tenha visto ou encontrado já tinha ido à Roraima. Nenhum de meus amigos mais viajados, que conhecem cada cantinho do Brasil e do mundo... Roraima, decididamente não! Ninguém!

Pois eu digo que estão perdendo. Tem quem chame de "fim de mundo", mas eles se vêem como o Portal de entrada do Brasil, e não estão de todo errado, se você estiver vindo da Venezuela fugindo de Hugo Chávez.

Alguns fatos engraçados me deram vontade de escrever esse texto, nada poético. Primeiro que eu saí de um frio bárbaro em São Paulo e caí num calor alucinantemente úmido de quase quarenta graus em Boa Vista. A sensação térmica era de sessenta. Não reclamo, pois nunca reclamo do calor, só do frio.

Isso me fez lembrar o meu amigo virtual Flavio Ferrari que sempre que pode, foge do frio e nos "esnoba" pelo seu blog (arguta.blogspot.com). Pensei em fazer o mesmo, mas o calor de Roraima não é coisa de se esnobar. É de sufocar e procurar o "freezer" mais próximo.

Outro fato engraçado foi a "caravana" de japoneses.
Eles fazem excursões até para Roraima, gente!
Vão em "bandinho", munidos de uma parafernalha de equipamentos tecnológicos de última geração (câmeras de fotografia, de vídeos, binóculos, etc). Tenho quase certeza de que eram os mesmos que encontrei há muitos anos atrás descendo de uma "Van" na frente da Catedral de Notre-Dame.

Não foi possível tirar a dúvida, (não porque eram todos parecidos), mas porque a maioria estava de máscara para se proteger da gripe "suína". Eles saíram de São Paulo de máscara e desceram no aeroporto de Boa Vista (mais de oito horas depois), com a mesma. Aquilo devia estar um criadouro de germes e bactérias, mas eles estavam se achando protegidíssimos.

Conhecer Boa Vista foi um enorme prazer. Uma cidade em desenvolvimento, com um traçado urbanístico moderno, avenidas muito largas e com grande potencial financeiro para os "muito" resistentes ao calor.

O Território de Roraima passou a ser Estado do Brasil há cerca de 20 anos se tanto, e tem belezas naturais indiscutíveis e 99% de sua área é de Preservação Permanente e Reservas Indígenas.

Tem um excelente comércio na fronteira da Venezuela (parecido com o Paraguai, mas de qualidade mais confiável), segundo nosso guia. Infelizmente não tivemos tempo para compras e lazer, a não ser uma peixada maravilhosa na orla do Rio Branco.

O povo local é bastante hospitaleiro e carinhoso, mas ninguém é da terra. Ao menos não conheci nenhum boa-vistense(?) da gema. Todo mundo veio de outro Estado, a não ser os índios e ribeirinhos.

Roraima é a terra dos Yanomamis (lembram-se do Raoni?), entre outras várias tribos menos pops.

E a poesia, nisso tudo?
Compartilhar!

Compartilhar é poesia! Viajar é poesia! Olhar a Amazônia de cima e ver o encontro do Rio Negro com o Solimões é poesia! Estar na única capital do Brasil acima da linha do Equador não é poesia, mas é legal.

Cantar em Roraima e agradar foi pura poesia.

Mas que é longe, é...