segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Saudade

Matisse


Mesmo quando longe
Mesmo quando ausente
Mesmo quando e sempre
inexistente
Sua parecença diáfana
Sua transparência
perpetua a sensação
de que transporto um fantasma
E que me possuído
não admite
fazer-me aparição
E mesmo de longe
Mesmo ausente
Mesmo que absolutamente
intangível
Assombra e assoma
por hora e eternamente
A abstraída lembrança
da sua percepção.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Da poesia

Palavras do coração - Amanda Cass


Tenho um mundo inteiro
de palavras ao meu dispor
Um dicionário com 
400 mil vocábulos
Um idioma
Vários...

Nada disso faz poesia .

domingo, 25 de julho de 2010

Abatimento


Sem atrevimento
para experimentos
Sem coragem
para divertimentos
Ando conformada
com o desalento
e a mesmice

Será velhice?



domingo, 18 de julho de 2010

alma perdida

Broken doll - Amanda Cass


Eu me perdi da minha alma há algum tempo.

Tenho para mim, que há muito tempo eu não sou mais eu.

Minha alma fugiu em algum momento quando estava distraída e já era tarde quando percebi.

Perplexa e confusa, eu a persigo por ai. Ando em busca de pistas, pegadas. Ponho-me em perigo, exponho-me, arrisco diante de qualquer vestígio de seu paradeiro, mas nada me dá indícios de que ela ainda habita em mim.

Não me sinto mais dona de mim, nem da minha casa, nem mesmo do meu querer. O querer perdeu-se com a alma minha.

Ela saiu sutil e discretamente. Desistiu de mim por certo, de tanto eu fazer concessões. Permissível, fui consentindo que meus desejos adormecessem e meu querer anestesiasse em prol do querer de outros.

Não foi por bondade, nem caridade. Apesar de hospedar um espírito pacífico, minha permissividade vem da indolência e de acomodação, mais que da benevolência.

Tenho a exata ciência disso.

Fui deixando de fazer as coisas que me davam alegria e que hoje nem sei mais se gosto.

Já faz tempo que não contemplo o nascer do sol, nem caminho por aí sem rumo, nem pedalo minha bicicleta sob o sol. Nem sei se ainda sei andar de bicicleta.

Tempo que não tomo um porre ou um grande sorvete, não danço, não canto bem alto no chuveiro, que não brinco de ser criança, que não aproveito de verdade a experiência de estar viva

Tempo faz que não sou muito, muito feliz, mesmo por alguns instantes, que não faço uma viagem, que não beijo com paixão, que não sou amimada só um pouquinho.

Essa nostalgia tem parecença com egoísmo, eu sei. Egocentrismo. Mas tenho a precisão urgente de ser contente um pouco, pois que os tempos de agora, são tão sem entusiasmo, que me apavora desgostar de vez de ficar viva.

Preciso achar a “ânima”.

Deve ela estar escondida cá em mim, pois que uma alma não há que deixar um corpo que ainda vive. Isso é certo!

Escarafuncho na minha memória o momento que a “vi” pela última vez, mas não me vem à lembrança. Presumo que tenha ficado lá atrás com minhas bonequinhas da infância ou entre os cadernos de adolescência, ou no primeiro dia de aula, ou quem sabe no primeiro beijo de amor. Mas a gente tem mania de apurar lembranças, só para ter ilusão de que já foi feliz, mesmo sem ter sido.

Sei que é a investigação mais solitária da minha existência. Um momento especialmente nevrálgico

Não há como obter ajuda para encontrar a alma que está dentro de mim.

Quem mais poderia dela saber? Supondo que a encontre, como resgatá-la?

Qual a isca que se usa para atrair e capturar uma alma fugidia?

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Exagerada...

Queria fazer poemas
de flores e passarinhos
de sol e céu bem azulzinho
mas não tenho aptidão
Se falo de vento
Furacão
Se falo de sol
Combustão
Se falo de céu
Imensidão.
Se falo de amor
Sofreguidão
Minha poesia
é descomedida
De intensidade
mal dosada
É mesmo um
tudo ou nada
Suicida verbal
Adjunto adnominal
E embora eu tente
{em prol da delicadeza}
não consigo
fazer diferente.

domingo, 11 de julho de 2010

iconoclasta



Agora que já quebrei todas as promessa
Quero mesmo é ficar em dívida
Duvido ficar quite com qualquer santo
que me resguardaria
Já não faço barganhas
Devo não nego e não vou pagar
Não é por descaso
Não é por descuido
Não é de propósito
É mesmo por lassidão
por atonia confessa
Uma insolvente
Uma insolente
Assumo os pecados que me cometo
Minhas imprescindíveis iniquidades
Perpetro meus ócios
Reincido meus vícios
E se ainda houver alguém no céu
Que queira me blindar do castigo
Esteja comigo
Me aceite [com]paixão
Ou abdique logo de mim sem dó nem piedade
Pois que o inferno
eu já conheço.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Passatempo

imagem google

Pega-pega
Pega nada
Pega nunca
Esconde-esconde
Aonde?
Que não encontro
Passa-anel
Passatempo
Passa boi
Passa boiada
Passei a vida inteira
esperando ser achada

Passei da idade de brincar...

terça-feira, 6 de julho de 2010

Inquietudes

mynameishalo.deviantar.com


Padeci por aí
tão amplificada
de sensações
Que exprimia
em ressonância
minha angústia
Até fiquei feliz
aliviada
quando a resignação
esvaziou-me
de anseios
Mas habita-me
uma alma irriquieta
Que se entedia
com quietude
Preciso estar no encalço
de tormentas
Quando bem perto
do inferno
- contrastada -
renasço incompreendida.

domingo, 4 de julho de 2010

Busca



Ando a procura do poema derradeiro
Pretensão que ainda cogito
e espreito
Que nem carece ser perfeito
Mas que nenhum poeta
tenha escrito.
Ai de mim tão arrogante!
Apenas um vate previsível
Que tudo o que escrevo
já foi dito
Mas inda afronto
o insensato sonho
Eu admito
Mas que poema é esse
que persigo tanto
a despeito dessa cava no meu canto
Que dilacere-se de amor
Que arrebate e denuncie
Incrimine contundente
iniqüidades
Onde se esconde
o meu poema almejado?
Decerto nas penas de algum
melhor poeta
Com canetas mais alumiadas
Bardos mais apaixonados
cujas musas sejam imortais
Talvez
seja a musa que me falte
Ou quiçá
injustiças e tragédias
tenham tornado-se em mim
motes prosaicos
e triviais.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Minha poesia

Amarelo-Vermelho-Azul - Kamdinsky

Minha poesia
é patológica
exógena
desordenada
Carente de feição
Minha caneta
tem garras sem tinta
que registra rasgando
por impulso
puro instinto
E o papel
que deveria ser
inerte
é substancialmente
indomável e esquivo
Dissolve-me a audácia
Dispersa a intuição.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

quinta-feira, 24 de junho de 2010

soneto à inspiração



Dispõe-se doce a regalia refinada
Sobre a indisposta e acirrada picardia
A luz presente profetiza o momento
Da delicada mão da psicografia


E é assim que nascem todos os poemas
De prenúncios e sismológicas sofias
Em que se amparam assombrosos teoremas
Bem mais que o ávido poeta suporia


É mais que óbvio que o vate sofreria
E de verdade é assim que ele morre
Nas mãos do sôfrego desejo inclemente


Busca incessante por versos à revelia
A mão destemperada ao papel só corre
Incidindo sobre a infindável vertente

.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Mutante

Intervenção em imagem do google

Quem calou a minha voz
foi um poeta
que deixou por piedade
um livro
e uma caneta
Mas quebrou meu flautim
e meu violão
A tristeza se incumbiu
do que sobrou
A saudade carcomeu
o meu vestido
que era cor de pensamentos
cor dos olhos seus
A solidão encaneceu
os meus cabelos
cor do girassol
Se não morri
foi porque comi poemas
noite e dia
Fiz alquimia com letras
Antropófaga de meu próprio
coração
E como uma anomalia
sobrevivi
e tornei-me poeta
também.

sábado, 19 de junho de 2010

Leviandade


Busco aéreos
pretextos
para a minha rebeldia
Para as vilezas
que cometo dia-a-dia
[fatos e atos
que não se contam
nem carecem dizer]
Não existe
mérito do perdão
para o meu dissoluto
coração
de princípios ambíguos
e equivocados
Declaradamente
não anseio por clemência
Tenho um prazer mórbido
pelas culpas que carrego
Mas confesso que tenho
um medo
Um só medo
Que alguém desvende
do meu ego
o meu segredo
E me revele assim
sem nenhuma amenidade
a exata e abjeta
consistência de mim.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Refém

parto - Kimt


Façam silêncio agora
Está nascendo um poema
dentro de mim
Não consigo cuidar de nada
Nem posso falar com ninguém
Está nascendo um poema
dentro de mim
Que não poupa os meus deveres
Sem hora e sem lugar
E enquanto não se fizer
não posso dormir
não posso comer
não existe paz
Está nascendo um poema
dentro de mim
Não vou à supermercados
enquanto o poema não nasce
Nem cozinhar eu posso
Nem lavar roupas ou louças
Não quero trabalhar
Não posso ouvir outras vozes
que não seja da musa
Faça-se silêncio, pois então!
Meu poema quer nascer
Derribo afazeres
Desconto pessoas
Ignoro o isolamento
E até que nasça fico assim
Fátua e solitária
Absolutamente
refém da poesia.